quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Emergências

Solitários, casais e até famílias inteiras, filhos levados pela mão de seus pais vestidos com cuidado - as meninas com os cabelos presos num rabo de cavalo apertado e os meninos exibindo um corte de fios ouriçados e endurecidos de gel - invadem a recepção iluminada com luz fluorescente e paredes gelo. É domingo ensolarado, hora da visita. Os ponteiros do relógio movendo-se num outro ritmo. No saguão do hospital muitos esperam a chamada para atendimento pelo número da senha. O andamento do expediente se arrasta até o meio do dia quando a sala da triagem fica vazia. Nos corredores poucos transitam. Uma mulher aguarda sentada junto a entrada de um dos setores de atendimento. Pensa: As doenças dariam uma trégua na hora do almoço, e os acidentes acometeriam os distraídos ou sem sorte após a sobremesa?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Essência

As calçadas ainda estão molhadas, as pessoas conversam nas portas de suas casas e prédios, enquanto a chuva dá uma trégua. Uma mulher fala animadamente com um homem velho e de voz experiente. No horizonte, o sol quer despontar ainda, no final de tarde. Alguém olha pela janela num espaço entreaberto na cortina. Acabara de acordar, a peça permanece escura. Não conseguira dormir a noite toda, sofria de insônia. Era assim, um ser notívago. Despertara com a barulhada alegre dos pássaros que habitavam o coqueiro antigo próximo a sua janela. Um vento qualquer, um pouco mais forte poderia derrubá-lo. Não saia em noites de chuva, preferia as frias e os dias cinzas e secos. Levanta, apesar das dores nas pernas e braços. Sentia o efeito da última batalha. Vivia das guerras travadas com os transgressores de vida noturna. Não lembrava se tivera uma família e nem tinha pessoas próximas. Um dia, como numa espécie de pesadelo, acordou ali naquela cama no quarto envolto na penumbra. Nunca mais voltou para onde quer que estivesse. Por instinto, soube das suas necessidades de sobrevivência. Na primeira noite fria saiu para caçar pequenos animais roedores, não lhe saciaram a fome. Foi quando começou a matar aqueles que viviam nas esquinas e becos escuros, escondidos por algum motivo. Aqueles de quem ninguém reclamaria o desaparecimento. Tinham em comum um histórico de origem duvidoso e incursões na marginalidade. Eram cúmplices. A noite era um tempo no qual sentia pulsar sua única vontade. Os cheiros invadiam seu olfato profundo, ouvia alto o bater do coração de suas vitimas. Rejuvenescia quando absorvia a essência invisível que animava os corpos que se debatiam, antes, de serem mastigados seus órgãos quentes e vibrantes.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Primeiras bromélias

Penny fazia o trajeto da escola para casa em vinte minutos, se não parasse para observar as novas plantas surgidas no caminho e admirar as conhecidas árvores frondosas. Havia decidido desde o seu primeiro dia de aula: seria botânica. Há mais de um ano fazia o percurso da casa para a escola sozinha. Não trilhava o caminho ensinado por seu pai, descobrira atalhos e clareiras escondidas entre as árvores do bosque que se aprofundava na paisagem. Existia uma avenida principal e ela deveria seguir o trilho de terra que a margeava – dissera sua mãe, mas Penny adorava descobrir coisas novas e a natureza era algo que a fascinava.
Como a claridade permanecia por mais tempo no verão, conseguia chegar em casa depois do horário das aulas sem levar bronca, no inverno, mesmo saindo mais cedo, não conseguia chegar sem que a noite houvesse se pronunciado. Gostava tanto do bosque que para ela já se tornara um lugar sagrado, várias vezes, levantava da cama bem cedo nas manhãs de sábado para explorar os recantos desconhecidos. Num dia enquanto olhava uma bromélia fixada num canto úmido descoberto por uma nesga de sol, ouviu o barulho de um galho sendo quebrado seguido do som de passos, aquilo fez com que tirasse sua atenção da beleza colorida do novo ser encontrado. Poderia ser um andarilho ou seu pai que encontrara seu esconderijo. Ficou olhando na direção de onde escutara o estalido e nada aconteceu, o vento continuou a balançar de leve as ramagens dos pequenos arbustos. O silêncio instituiu-se durante alguns segundos para em seguida dar lugar a ladainha de um pequeno pássaro respondida por outro pousado num galho próximo. Penny ficou em estado de alerta e o instinto de sobrevivência acionado, não entendia, mas sabia que alguma coisa até então não percebida por ela, fazia parte daquele lugar. Voltou para casa antes dos pais levantarem e resolveu esquecer do fato.
Na semana seguinte saiu um período mais cedo da escola e decidiu, já que o sol parecia tão intenso naquele pedaço verde de paisagem, ficar um pouco por lá, fazer um piquenique com a merenda que não havia comido. Sentou numa pedra aquecida pelo calor do sol e ficou olhando os pequenos seres dali, enquanto comia o sanduíche. As borboletas e os pássaros sobrevoando o espaço, os lagartos saídos das tocas deitados no chão aproveitavam o calor do dia. Desta vez Penny não entrou no bosque, ficou próxima da entrada e avistava dali a estrada. Decidiu ir embora depois de ter esvaziado o pote da merenda. Parou para ver um estranho movimento no interior do bosque e a revoada de aves agitando-se na copa das árvores. O ar morno deu lugar ao vento frio, fazendo os bichos interromperem o banho de sol.
Penny saiu correndo quando ouviu o ruído dos galhos sendo quebrados enquanto o vento ia passando entre os espaços maiores simulando o caminhar humano.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pablo's house - parte final

Bonnie resolveu aproximar-se do balcão de madeira do bar. Parou ao lado do homem de cabelo grisalho e pediu um refrigerante. Ele fez sinal para um dos funcionários. Ela perguntou se era o gerente, ele meneando a cabeça respondeu: - Não, sou o dono. Apresentaram-se. Ela comentou ter reparado que o nome e o sotaque dele pareciam estrangeiros. Pablo disse ter vindo da Argentina há alguns anos. A moça meio sem jeito, comenta que até então não tivera coragem de ir a um dos toaletes. Ele se oferece para acompanhá-la. Ela saiu do banheiro assustada com o espelho que refletia a imagem distorcida e todas aquelas plantas trepadeiras. Ele percebendo sua reação falou num tom didático – aquele lugar fora pensado para provocar sensação de medo, mas existiam ambientes agradáveis na casa. Caminhou no corredor na direção oposta de onde tinham vindo, Bonnie sentiu-se convidada.
Perséfone conduz Syd ao final do corredor que dava num pequeno jardim. Dalí avistava-se uma grande porta. Era a entrada para a área privativa. Ela diz que ali poderiam conversar longe da agitação. Sentia que estava chegando o grande momento. Ele também parecia necessitar de algo com urgência, vê que carrega no bolso do casaco a dose junto a seringa descartável. Indigna-se ao perceber que o sangue dele está contaminado. Seu pai deveria ter algo para ela. Olha na direção do corredor e vê Pablo acompanhado de uma linda mulher vestida de negro. Ele faz as apresentações. Bonnie reconhece Syd e controla sua vontade de perguntar por Patrícia. Deveria ter ido embora. Pablo vai em direção a porta grande abrindo-a. Bonnie vai atrás dele, observa o ambiente espaçoso, os móveis antigos, as peças de cerâmica em cima deles, o calendário numa das paredes com a representação cíclica do tempo, uma pedra grande e lisa no formato de uma mesa ao fundo, uma caixa de madeira avermelhada cheia de terra e uma urna funerária indígena de cerâmica corrugada. Pablo fala de cada objeto da sala enquanto serve e oferece um cálice de licor a Bonnie. Ela experimenta a bebida e repete sentindo um calor relaxante provocado pelo conteúdo escuro contido no pequeno copo de prata. O lugar frio e misterioso parece-lhe acolhedor e iluminado. O rosto de Pablo vai ficando muito próximo e depois mais distante, num foco oscilante, as imagens perdem a nitidez. Vê Perséfone sentada no chão e Syd ao seu lado. Sente a língua arrastada quando pergunta que tipo de licor é aquele e com a visão turva enxerga o rapaz entornando um cálice gêmeo. Pablo responde que não é licor e sim uma bebida usada em rituais, mas Bonnie não consegue ouvir.
Perséfone ajoelha-se em frente a mesa de pedra e invoca os espíritos da natureza, enquanto Pablo despe Bonnie e coloca seu corpo em cima da plataforma lisa. Ela se debruça sobre a moça, inclina a cabeça e abocanha o pescoço fazendo uma profunda cissura.
Syd dorme. Ficará assim até que esteja limpo para o próximo ritual.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Pablo's house

Pablo conseguiu aprontar-se em poucos minutos. Chegou na danceteria antes de todos. Organizou os funcionários e deu as últimas instruções. Na hora em que foram abertas as portas, ele estava vestido à rigor. Depois colocou algo mais esportivo e sentou-se no bar como se fosse um dos freqüentadores, não conseguia tirar os olhos da morena de cabelos longos, que na pista de dança, se movia ao ritmo da música oriental, parecendo uma cobra hipnotizadora.
Perséfone saiu de seu apartamento, no centro da cidade, antes das dez horas. Passou em duas casas noturnas por puro hábito. Observou o movimento ainda fraco. Antes das onze horas deveria estar no Pablo’s. Não concordou com o nome quando seu pai lhe revelou. Disse que parecia coisa de aculturado. O argumento dele foi relevante: - Neste pais tudo que está grafado em inglês recebe maior credibilidade. Ela ficou pensando se ele não se incomodava em ter descaracterizado o próprio nome, mas depois pensou que não podiam se dar a esses luxos. Eram apenas sobreviventes. A gerência da casa noturna ficara sob a responsabilidade dela. Passara meses criando os detalhes da decoração do lugar.
Não sabia mais se era vítima da situação que se estabelecera em sua vida desde muito cedo. Tudo começou com a primeira manifestação de maturação de seu corpo. Passou a entrar em contato e absorver uma nova realidade. Os seus sentidos ficaram mais aguçados e o seu contato com a terra mais necessário. Entrou em sintonia com os elementos da natureza e passou a entender que ela se apresentava através de ciclos que resultavam em vida e morte. Ao mesmo tempo em que passou a entender um pouco dos mistérios da existência, sentiu em seu próprio organismo uma debilidade crescente, as forças se esvaiam e nenhum alimento as recuperava. Depois de vários exames médicos e nenhum diagnóstico, seu pai lhe falou em sacrifícios humanos e do seu legado materno. Sua mãe precisava de doses diárias de sangue. Ela não agüentou essa situação que achava ser uma maldição e pediu que a deixasse morrer quando começaram a ser perseguidos na pequena cidade do interior da Argentina da qual fugiram. Ela não suportou a viagem, o frio do inverno e a inanição.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Pablo's house a saga continua

Patricia viu Syd, assim que ele entrou no Pablo’s house, aproximou-se e convidou-o para dançar. Depois de percorrer alguns lugares na cidade, ele chegara ali, porque um amigo lhe dissera que iria gostar. Sentia necessidade de algo mais forte do que a cerveja oferecida por ela, pediu uma tequila, depois pediu que uma garçonete lhe indicasse o caminho dos banheiros, não gostou quando ela seguiu seus passos. Mas teve que admitir que não encontraria se ela não mostrasse. As luzes do caminho oscilavam e no banheiro olhou seu reflexo distorcido no espelho e sentiu ter perdido a identidade. Aquele lugar era cheio de truques. Olhou para baixo e o piso parecia ondulante,aquilo era real, estava tonto. Molhou os pulsos e esperou passar. Não imaginava quanto tempo ficara ali, quando saiu não viu Patrícia que entrara no toalete feminino. Esbarrou numa moça morena, cabelos curtos e picotados. Ela sorriu e ele pediu desculpas. Olhou para os lados constatando que a outra cansara de esperar. Perséfone apresentou-se e perguntou se ele estava desacompanhado. Ele respondeu: - Sim, surpreso e ficou ainda mais quando ela convidou-o para irem a um lugar mais tranqüilo. Ficava no final do corredor, na direção oposta a da sala de dança. Syd achou tudo aquilo muito interessante.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Pablo's house - continuação

Quando o relógio digital, colocado numa das paredes do bar, zerou, foram abertas as portas da sala e o público que aguardava também fora da casa, começou a entrar. Uma música incidental entoava lamentos e gemidos, num som oscilante, como um mantra. O piso da sala coberto com folhas de árvores parecia áspero como chão de terra, estranhamente, os sapatos deslizavam nele. As paredes estavam cobertas por plantas trepadeiras, algumas pessoas viram lagartixas correrem entre as folhas. A sensação era de que tinham saído e não entrado em algum lugar. No teto da sala estava projetado um céu cinza, as nuvens se movimentando para desabarem em chuva. Alguns ficaram confusos achando que não havia cobertura acima de suas cabeças. A sensação era de expectativa. Parecia que a qualquer momento iria ocorrer algo. O medo foi contagiando a todos e transformando-se em energia, misturada ao som tecno. Muitos passaram a pedir aos garçons, bebidas fortes.
Bonnie dançava e a todo momento olhava para trás. Sentia um arrepio nas costas. Poderia ser o ar gelado que vinha do corredor que levava aos banheiros. Patrícia conhecera um tal de Syd, entraram juntos num dos corredores subterrâneos que levava aos toaletes e não voltaram. O homem grisalho sentado no bar não parava de olhar para ela. Era alto, magro e deveria ter uns cinqüenta anos. Ela impacientava-se com a demora da amiga e a hesitação do homem do bar. Será que aceitaria se o convidasse para dançar? Não iria atrás da amiga naquele corredor sombrio. Não sentia-se a vontade naquele lugar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pablo's house - continuação

Pablo chegou em casa apressado. Deveria retornar ao trabalho em alguns minutos. Tinha tempo para tomar banho e trocar de roupa. Naquele sábado inaugurava sua casa noturna. Planejara durante muitos anos. Custou a achar a casa certa. Esta contava mais de um século de existência e se parecia com a que morara na infância: muitos quartos, passagens secretas e corredores subterrâneos. Transportou todos os móveis e antiguidades de seu pais de origem e mandou construir cenários para a decoração dos ambientes destinados ao público. A outra parte da casa seria privativa e lá colocaria a antiga mobília e os objetos sagrados. Pablo aparentava ter uns cinqüenta anos, O cabelo espesso grisalho parecia precoce. Era magro, alto, determinado e de olhar confiável.


As portas da casa seriam abertas ao público a partir das onze horas da noite. O acesso a sala da pista de dança, seria liberado a meia-noite. O bar era uma espécie de ante-sala. Paredes despretensiosas e claras. O cenário era desprovido de excessos, somente o neon roxo contornando as palavras: Pablo’s bar. Os garçons e garçonetes com olhos delineados de preto vestiam smoking. A vasta sala ao lado seria introduzida através da porta dupla revestida de napa branca. Havia uma eletricidade, um movimento pulsante, como se os objetos e ornamentos dentro dela ansiassem por interagir com as diversas vidas que logo a habitariam por algumas horas, certamente as mais vibrantes.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

PABLO'S HOUSE

Amanhece, é início de outono, mas as noites ainda estão quentes. Os dias chuvosos deixam de legado uma umidade pegajosa. Atrás do cipreste, a lua desapareceu e o dia se apresenta mais uma vez nublado. O centro da cidade está deserto. É domingo. Seis horas. Em uma hora o sino da catedral soará avisando da primeira missa. Perséfone observa da janela do apartamento a praça com alguns vagabundos adormecidos nos bancos e a silueta do prédio da igreja. Puxa a cortina para manter a luminosidade fora do quarto. Estivera naquela noite em três lugares e conhecera duas pessoas. Syd e Bonnie. Ela ficou ligada a eles por uma estranha intimidade. Agora sente-se enfraquecida. Está no estágio posterior ao da fome mobilizadora. Não tem forças para se alimentar. Precisa dormir.
Syd colocou a calça preta surrada e olhou-se no espelho do banheiro confiante de sua bela aparência. Sempre se dava bem quando saia para a caça. Alto, cabelos tingidos num tom ferrugem, picotados. Os olhos eram acinzentados e vasculhadores. Era noite de sábado, preparava-se para dar uma volta pelas danceterias da cidade, como fizera na sexta-feira. Estava a procura de um determinado tipo de pessoa e sabia aonde encontrá-las. Faltavam alguns minutos para as onze da noite e Syd começou a sentir-se fraco, a pressão baixou e as mãos gelaram. Precisava sair rápido. Olhou em volta, as paredes do apartamento giravam. Sentou-se na poltrona. Levantou-se a atravessou a sala indo em direção a cozinha asséptica. Abriu a geladeira quase vazia, pegou a garrafa de água e tomou no gargalo um grande gole. Não sentiu-se melhor. Algo corroia o seu estômago. Resolveu sentar e esperar o sintoma passar, sempre passava.
Bonnie abriu a agenda na letra PE. Olhou para o primeiro nome da lista e ligou para Paulo. O telefone tocou e ninguém atendeu. Voltou ao caderninho e passou o dedo no segundo nome e ligou para Patrícia que era o terceiro. Ela atendeu e disse estar saindo para a inauguração de uma danceteria , achava que seria a nova atração da cidade, porque a decoração era toda baseada em cenários de filme de terror. Ficava numa velha casa situada no bairro mais antigo. Bonnie anotou o endereço. Passaria lá antes da meia-noite.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Aparição II – Parte final

Nunca tinha ido ao cais do porto na época do estio, o sol forte inibia a visão, ao olhar para o chão via-se entre os paralelepípedos a grama seca. Era meio dia, o lugar estava deserto. Olhou para o rio com nível bem mais baixo, dava para ver a marca anterior na mureta construída para barrá-lo. O mesmo navio ancorado há muitos anos continuava quase imóvel em estado de deterioração. Fez a incursão de sempre adivinhando que não encontraria qualquer ser vivo ou morto. Estava muito quente, seus neurônios pareciam fritar, pensava em todas as possibilidades, sentia o ar denso. Era como uma vibração que se expandia para todos os lados e para cima, como uma onda de calor. Foi até a porta do antigo bar e ao abrir a porta levou um grande susto ao ver Vicente sentado numa cadeira do velho cenário. Perdeu a noção das horas assim que a porta fechou atrás dela. A luminosidade era a mesma da noite em que entrara ali pela primeira vez. Os amigos de Vicente foram aparecendo de lugares que não conseguia ver, como se as paredes fossem as cortinas escuras de um palco. Sentavam-se em grupos nas mesas desocupadas e conversavam naturalmente. Ella e Vicente ficaram a sós. Ele falou que não queria assustá-la, mas não viu outra forma de levá-la mais uma vez ao porto. Esse lugar parece desabitado para quem não consegue ver a realidade. Nós somos muitos a ocupar essa área que não está abandonada ou inativa, nunca esteve. Poucos conseguem ver as várias manifestações da existência e você foi escolhida. Não se apavore e nem pense que sou louco. Nossa aparência é semelhante a de alguns jovens da sua idade, mas pode ser outra, num tempo passado ou futuro. Ella não estava com medo e sim com um pavor mortal, estava gelada, paralisada outra vez e com uma única pergunta a latejar na sua cabeça: O que ele queria? Se conseguisse falar, essa seria a pergunta derradeira, porque não acreditava que permaneceria viva ou lúcida. Depois de observá-la por minutos eternos disse que tinha falado o que queria e não iria mais importuná-la. Podia ir. Um dia saberia o que esperava dela. Ella saiu do estranho bar em estado catatônico. A claridade era intensa, esbranquiçada. Sentia sede, olhou para o relógio: meio dia. Por que não tinha ido para casa? A memória fragmentada não lhe dava pistas. Alguma coisa tinha acontecido, mas não queria lembrar. Foi para casa, aquele fora o último dia de aula e sabia que passara nas provas, graças a ajuda de Victor.

Viu o resultado final no dia em que inscreveu-se para o vestibular. O amigo passou para o curso de medicina e Ella não passou para psicologia. No ano seguinte voltou aos estudos para o vestibular sozinha. Era como se estivesse esquecido da aparição do corredor, não lia mais as histórias de Maupassant, mas começou a se interessar por parapsicologia.

Numa noite de inverno ao passar pela área portuária, ficou fascinada com toda a movimentação existente no lugar, mesmo com a cerração baixa que deixava o chão escorregadio, transeuntes passavam de um lado para o outro, entrando e saindo dos armazéns com as fachadas pintadas. Tudo estava mais iluminado, havia lojas, bares lotados tocando música que parecia da década de 40, com músicos usando chapéu e terno de riscado. Os barcos ancorados eram novos, inclusive o navio, estava restaurado. Para Ella tudo se passava atrás de uma espécie de cortina transparente. Senti-se seduzida por aquela imagem. Ao encaminhar-se para o rio viu Vicente estendendo a mão, convidando-a para embarcar no navio. Começava a lembrar, agora sabia o que ele queria.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Aparição II - terceira parte - Cont

Depois desse dia Ella nunca mais foi ao cais do porto. Não comentou o acontecido e até se recusava a pensar sobre aquilo que não conseguia entender. Vicente desapareceu. Começou a levar a vida de forma mais tranqüila, sem sobressaltos, dedicando-se aos estudos para as provas finais e ao concurso do vestibular. Não imaginava que voltaria a ter aquela visão no corredor do prédio em que morava. Ele estava ali. O que estava querendo? Quem era? Vicente, o homem esquilo ou um dos outros? Só poderia ser Vicente que estava querendo amedrontá-la como fez quando foi no apartamento dele. Não sabia o que fazer, não podia contar com ninguém e o que era pior, ninguém acreditaria nela. A única solução era voltar a área portuária e descobrir tudo sozinha, mesmo que isso custasse a sua vida. O medo impediu que cumprisse o seu plano, até não conseguir sair do apartamento à noite, porque na escuridão do corredor voltava a ver o espectro luminoso.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Aparição II - terceira parte

Mesmo sendo um dia de semana, Ella decidiu ir ao bar do cais do porto, a noite se insinuava fria e a cena parecia repetir-se: o lugar quase deserto e o homem esquilo cruzando o seu caminho como se estivesse atrasado para um compromisso importante. Passou direto pela porta do bar seguindo em direção ao rio. Ella achou que o lugar ainda estava fechado e forçou a porta achando que não abriria. Ficou surpresa quando ela escancarou facilmente. Apesar da escuridão pôde ver que o balcão, as mesas e cadeiras haviam sumido. Nada mais do que fora um bar estava ali. O lugar abandonado cheirava a mofo e parecia estar fechado há muito tempo. Ella não acreditava, a porta era a mesma, pintada de preto, não podia estar enganada. Andou entre outros armazéns para ter certeza e não encontrou nenhuma porta como aquela. O lugar era aquele naquele acesso ao porto, os portões eram identificados com as letras do alfabeto e o seu era o A. Olhou na direção da orla do rio e viu Vicente conversando com o homem esquilo, estavam de costas para Ella e pareciam discutir. Vicente parecia repreender Blue. Não ouviram Ella se aproximar e falavam num idioma que não conhecia. Ficou encostada na parede atrás de uma coluna e viu quando o homem esquilo caminhou em direção a um beco escuro entre as construções, seguido por Vicente. Congelou quando não conseguiu mais ver os homens ou o vulto deles e sim dois seres planando no ar, tinham uma espécie de fosforescência e emitiam um som chiado, como uma interferência elétrica. Quase desmaiou e levou muito tempo para recobrar-se e ir embora.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Aparição II - final segunda parte

O riso excessivo e quase sem som fez com que parecesse parte de uma dublagem grotesca. Ella sentia-se num daqueles cenários em que há vários espelhos que distorcem a imagem. Nada parece ser o que realmente é. A sensação de medo que só espreitava se fez presente. Não havia ali qualquer coisa que pudesse lhe dar segurança a não ser a porta da saída. Vicente levou algum tempo para parar com aquilo que mais parecia um espasmo, depois olhou para Ella e se desculpou. Mudou de assunto e passou a agir com tranquilidade e equilíbrio, mas além daquilo, ele demonstrava certa frieza e distanciamento. Quando o rapaz foi na cozinha pegar um copo de água, Ella puxou distraída o puxador da gaveta de um balcão de madeira, próximo ao sofá da sala, quando abriu, olhou sem pensar, e viu que estava vazia, uma idéia passou a habitar seus pensamentos e fez com que abrisse todas as gavetas e portas do móvel para constatar que estava vazio, antes que Vicente retornasse a sala. Depois entornou o copo de uma só vez, disse que tinha que ir encaminhando-se para porta estendendo a mão e girando a maçaneta impedida pela chave. O rapaz destrancou a fechadura. Ella saiu quase correndo. Antes de ir embora deu uma olhada para dentro do quarto em que havia apenas uma cama. Poderia apostar que Vicente não morava ali.

sábado, 25 de abril de 2009

Aparição II

Foi o que perguntou assim que ficaram a sós, enquanto Victor aguardava a alguns passos de distância, próximo ao meio fio, o carro de seu pai que vinha buscá-los. O rapaz respondeu que não havia mistério algum, Blue escutou o endereço quando Ella instruiu o motorista de taxí.Realmente não havia mistério, a não ser o fato do homem esquilo, ser uma espécie de espião e ter como nome uma cor e não ter o nome de um bicho. De qualquer forma, não seria indiscreta o bastante para averiguar a origem do cognome do homem azul e isso não era relevante, como diria Victor. Estranhou o comportamento do amigo ao ser apresentado a Vicente, ele que no início pareceu tão desconfiado em relação àquele grupo. Era bem provável que não soubesse de quem se tratava. Resolveu deixar as coisas como estavam, talvez tudo fosse excesso de sua imaginação. Ella mudou de idéia quando Vicente começou a aparecer em todos os lugares em que estava. A segunda vez foi na saída da escola. Deixou que a acompanhasse até em casa. Uma outra vez no supermercado e assim passou a vê-lo todos os dias. Sentia-se vigiada, como se tivesse perdido a liberdade e ao mesmo tempo não conseguia recusar os convites que ele fazia. No dia em que foi no seu apartamento, num bairro pobre próximo a área portuária, soube que não tinha pais. Fora criado num orfanato. Os amigos também, alguns tinham sido criados por famílias que os adotaram, outros por instituições. O que os aproximara foi essa falta de referência materna e paterna verdadeira. Vicente lembrou da vez em que Ella falara dos pais e ele respondera que tiveram pais cuidadosos também. Talvez tivessem sido se suas histórias fossem diferentes. Ella ficou embaraçada, não sabia o que dizer nessas situações em que tragédias eram reveladas. Ficou quieta olhando para a parede sem pintura da sala do apartamento pequeno e quase sem mobília. Tudo parecia resolvido, havia certo constrangimento no ar, eles eram apenas jovens órfãos esquisitos. Até que Vicente começasse a rir e dissesse que era tudo mentira.

domingo, 19 de abril de 2009

Aparição II - continuação segunda parte

Aparição II – continuação parte II

Ella chegou cedo na noite da exposição, porque tinha hora para ir embora. Victor a esperava noutra festa. Só aceitou dar cobertura para a sua aventura naquelas condições: encontrá-lo em outro lugar e voltar para casa em sua companhia. Parecia um irmão mais velho. Soava estranho para quem era filha única. Um dos armazéns foi preparado para a mostra dos quadros. Pendurados em paredes com a tinta descascando formavam um painel. A luz que os iluminava era fraca, amarelada, contrastava com as paisagens pintadas nas telas de moldura de madeira entalhada. As pinceladas soltas pareciam ter sido feitas por alguém que tinha pressa e não queria perder os movimentos da cena retratada. Ella não sabia de que época eram aqueles quadros, mas pareciam antigos, de artistas conhecidos do século XIX e não daquele bando de garotos. Não aceitou a taça de vinho que Vicente lhe ofereceu para brindar com o grupo. Ele não insistiu depois que falou que não bebia. Em pouco tempo o lugar lotou. As pessoas eram mais velhas e pareciam entender de arte e ter dinheiro para comprar.
Despediu-se depois de uma hora e foi ao encontro de Victor, antes de sair comentou com Vicente que estava indo a outra festa. Ele desculpou-se, estava ocupado atendendo os convidados. Pediu que o homem esquilo a acompanhasse até um ponto de taxi. Ele nada falou, enquanto andava olhava rapidamente para todos os lados, só faltava roer uma noz tirada de um dos bolsos do casaco surrado. Contou a Victor sobre os quadros, os temas retratados a técnica usada. Ele falou que parecia ser imitação da obra dos pintores impressionistas e pós impressionistas. Não era nada de mais, todo artista tem aqueles nos quais se inspira. Ella pensou que os quadros mais pareciam cópias de originais do que outra coisa e resolveu deixar mais aquele dado para análise posterior. Quando se encaminhavam para a saída do clube, Ella percebeu que alguém familiar andava na sua direção sorrindo, não reconheceu o rapaz, vestido como qualquer outro da festa. Ficou em dúvida durante alguns segundos até ele ficar bem próximo. Quando os abordou, Ella intrigada, já havia reconhecido Vicente e apresentou-o a Victor que pareceu simpatizar com ele e retribuiu o aperto de mão de forma calorosa, como um velho conhecido. Não lembrava de ter dito para ele o endereço da balada. Como foi que descobriu?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Aparição II

Com esforço, deu um jeito de ir embora, seus pais cuidavam o horário que chegava em casa e era bem provável que Victor ligasse para o seu celular assim que chegasse da festa. Vicente disse que aceitaria suas desculpas se retornasse no sábado em que inaugurariam uma exposição dos quadros do pessoal do grupo - não comentara, mas o propósito daquele pessoal era a arte em todas as suas manifestações. - Não se constranja, todos os pais são iguais, os nossos também eram assim. Ella enquanto andava acompanhada por Vicente que levou-a até um ponto de taxi, pensava em qual seria o motivo dele ter usado o verbo no passado quando falou nos pais. Muitas vezes, ele parecia ser um homem bem mais velho. Antes que embarcasse no carro ele comentou que houve uma época que aquele lugar era movimentado, iluminado, com comércio intenso, bares elegantes na beira do estuário ou rio, como queira. Durante o rápido trajeto que fez até em casa Ella ficou matutando o que ele dissera: como poderia falar como se tivesse vivido há mais de meio século? Esse era o tempo de inatividade do porto.
Assim que entrou no quarto, o telefone tocou, fez voz de sono ao pronunciar o “alô” para que Victor acreditasse que havia acordado naquele momento. O amigo disse que parasse com aquela farsa barata – viu que havia descido de um carro não fazia cinco minutos. Ella admitiu a mentira e combinou que contaria as novidades no dia seguinte. E assim fez omitindo algumas partes, aquelas que estavam fazendo com que montasse um quebra cabeça. Convidou o amigo para a exposição de artes plásticas no cais do porto, mesmo sabendo que ele inventaria uma desculpa na hora para não ir. Ella percebeu certa desconfiança e contrariedade na expressão de Victor e achava que ele faria de tudo para impedi-la de comparecer ao evento. Ele era muito pragmático para entender aquela gente que parecia ser mais de outra época do que excêntrica.

segunda-feira, 6 de abril de 2009


Aparição II – continuação- parte II

Quando caminhou em direção a uma mesa desocupada não passou desapercebida, o grupo sentado, próximo a porta e com roupas parecidas com as suas, ficou olhando para Ella, alguém que parecia ser o líder, comentou em voz alta: - Aqui nenhum forasteiro passa impunemente e tão pouco tem permissão para permanecer invisível – sentenciou Vicente olhando para as costas da intrusa. Ella estremeceu e ocupou, na mesa vazia, a cadeira que deixava que permanecesse de costas para o rapaz de voz estridente. Levantou e pediu no balcão, a um garção de olhar ausente, uma garrafa de água mineral. Quando voltou para a mesa viu que estava ocupada, apesar do casaco que havia deixado no espaldar da cadeira. Era Vicente que não deixou que passasse direto pela mesa, pegasse o casaco e fosse embora. Não precisa ter medo, somos inofensivos, disse ao estender a mão. Achou ele formal, para a idade que aparentava ter, um pouco mais que a sua. Apresentou-lhe os outros membros do grupo e pediu que se juntasse a eles. Havia moças e rapazes, alguns formavam casais, não necessariamente de sexos opostos. Num total de seis. E assim Ella passou a freqüentar uma balada de sonoridade diferente. Não havia qualquer coisa nas atitudes do grupo que a chocasse naquele primeiro momento, mas sentia um peso no ar, uma vibração, como se algo estivesse prestes a acontecer. Tinha vontade de sair dali, ir para um lugar mais iluminado, mas suas pernas pareciam estar ancoradas.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Aparição II - parte II

Naquela noite não conseguiu jantar, trancou-se no quarto para esperar passar a tremedeira. Só conseguia pensar que ele estava ali. Aquilo que mais temia acabara de acontecer. Ella pecara, como tantos, pela curiosidade que não achava ser excessiva. Tudo começou com sua atração pela área do cais do porto da cidade, então numa noite em que saiu com os amigos para a balada acabou indo parar lá. No início da festa disse que não estava se sentindo bem e pediu a Victor que a levasse para pegar um taxi, mesmo achando arriscado, ele concordou com a condição de que ligasse quando chegasse em casa. E assim Ella fez ao chegar na área portuária. Ficou perambulando entre os armazéns vazios, destinados em outra época, ao estoque de produtos vindos de outras partes do mundo. O porto fora desativado e aquele lugar estava quase abandonado. Resolveu seguir alguém que passou indo em direção a um bar que ocupava uma pequena porta num dos armazéns. Era um homem. Caminhava rápido, o seu jeito lembrou-lhe um bicho roedor, parecia um esquilo. Não percebeu sua presença e tão pouco parecia interessar-se por qualquer coisa alheia a ele. Ella queria parecer invisível ali, então vestiu-se a rigor, com o seu velho casacão preto, calças cargo e os coturnos para combinar. Ao entrar no bar, levou um susto, havia muita gente da sua idade por lá e usavam o mesmo uniforme.

terça-feira, 24 de março de 2009

Aparição II
Assistir as aulas no horário da manhã era como estar num território alfa, entre um sobressalto e outro despertava do cochilo e fazia as anotações de biologia. No final das aulas, já acordada, ia animada e com fome para casa. Três vezes por semana estudava com Victor no final da tarde, nos outros dias se virava sozinha. Naquela terça-feira tinham combinado estudarem matemática que era mais um enigma na sua vida e para o amigo, algo elementar. Ficaram revisando a matéria até mais tarde, porque estavam no período das provas de final de ano e tudo ficava mais difícil. Quando saiu do apartamento de Victor não apertou o interruptor da luz e ficou envolta na escuridão do corredor, ficou com medo de ter que caminhar alguns passos na direção contrária para apertá-lo, pensou em sair correndo e subir as escadas até o seu andar, o elevador era uma opção mais assustadora ainda. Olhava para as paredes buscando algum apoio e não conseguia enxergar, quando esticava o braço para tocá-la, tinha a impressão de que ia se distanciando, parecia elástica. Ficou sem referência e em pânico, correu para as escadas, olhou para trás antes de subir, porque escutou um som que parecia um chiado se aproximando. Viu algo fosforescente que saia da parede e planava pelo breu do corredor indo na sua direção. Congelou. No mesmo instante acenderam a luz do andar de cima e Ella conseguiu voltar a correr e só parou ao chegar em casa.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Aparição II cont.primeira parte

Estudaram durante duas horas quentes, regadas com muita limonada gelada. Quando saiu do apartamento às oito da noite, ainda estava tudo claro no corredor, ainda bem, pensou consigo mesma, quando fez o percurso de volta. Começou a entender que os sais por exemplo, eram substâncias iônicas e que existiam vários tipos, além do utilizado na cozinha. O Victor tinha um jeitinho de tornar simples as matérias que pareciam complicadas. Depois daquelas horas massacrantes iria dar uma relaxada, após a janta, relendo Aparição, adorava aquela história. O ambiente, a época, conseguia ter as mesmas sensações do personagem.
Morava numa cidade, em que as noites de inverno eram frias e úmidas e em muitas havia aquela cerração que lembrava o fog londrino. Ella adorava essas noites em que poderia acontecer qualquer coisa, bastava dobrar umas das esquinas das ruas dos armazéns da área portuária. Lá a população era noturna e freqüentadora de bares e pensões encardidas que ficavam a margem do rio. Todos pareciam borrões com as cabeças cobertas com gorros e mantas a proteger os pescoços, andarilhos no meio da neblina que ensaboava o paralelepípedo tornando-o escorregadio. Numa dessas noites, Ella conheceu aquela que seria para os outros, uma estranha companhia.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Aparição II - primeira parte


E ai vai a história: Ella ia andando pelo corredor do prédio, era final de tarde e as janelas basculantes absorviam a luminosidade do verão. Aquele calor todo fazia com que se sentisse agoniada, lenta, sem vontade de percorrer o trajeto que a levaria ao apartamento de Victor, seu colega de cursinho. Tinha que estudar aquelas malditas substâncias iônicas, conteúdo dado nas aulas de química, tinha que passar no vestibular da universidade federal e terminar de cursar o ensino médio. Era muita coisa para um só ano, muita pressão e pouca vontade.


Tudo parecia tranqüilo quando passava por ali de dia. As escadas, as paredes sólidas de granito cinza. Mas quando anoitecia, na escuridão de uma noite sem lua, as coisas eram muito diferentes. Não queria ficar pensando naquilo, não era hora e além do mais, o Victor, era normalmente cético. Foi o que disse quando perguntou se acreditava nas histórias de Maupassant - Era apenas ficção. Ella discordou, mas não falou sobre sua crença naquilo que alguns chamavam de sobrenatural.

terça-feira, 17 de março de 2009

Todas as histórias são críveis, basta que o narrador tenha poder de persuasão.
Este espaço será dedicado a muitas histórias que ficarão pulsando sobre este pano de fundo como um orgão vivo e se alimentando com a sua imaginação. Serão relatos verídicos e também inventados ou até misturados, para que tudo fique mais difuso e, portanto, interessante.

A história será postada nos próximos dias. Aguardem