segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


Reveses



     O mais velho apanhava e não reagia, usava os braços como escudo, o mais novo e mais forte batia sem demonstrar remorso. Os transeuntes paravam para olhar, os motoristas de táxi  faziam uma espécie de torcida organizada, se animavam e quase apostaram quando o mais velho pegou uma pedra para atirar no outro. Na rua estreita do centro da cidade, existiam garagens e terminais de ônibus. Os que passavam ficavam revoltados ao ver o mais velho apanhando, não imaginavam  o início daquela história.

     Tudo começou na época em que Mirtes chegou na cidade em busca de emprego, deixara o filho pequeno na cidade do interior com a mãe e o irmão caçula. Veio com a recomendação feita num bilhete manuscrito pela dona da farmácia, enviado para a irmã que morava na cidade grande e precisava de uma doméstica. O endereço, anotado no mesmo papel da apresentação, amassado e úmido do suor na mão aflita. Ao descer na rodoviária sem saber para onde seguir teve a sorte de encontrar Ovídio, muito prestativo, se ofereceu para ajudá-la, generoso, pagou um lanche apesar de sua recusa, antes de pegarem o ônibus que os levaria ao endereço escrito no pedaço de folha. Mirtes era uma jovem mulher, não chegara aos trinta anos,os cabelos escuros trazia preso no alto da cabeça num “rabo de cavalo” divertido, vestia: saia e blusa. Levava um casaquinho na mão, prevenida das baixas temperaturas da primavera. Olhava diretamente nos olhos fugidios de Ovídio cada vez que ele falava.

     Começou a suspeitar de que estava indo para um lugar bem diferente do descrito no endereço antes de desembarcar. O bairro de ruas estreitas e prédios antigos, vários deles abandonados, não era passagem para nenhum condomínio de casas luxuosas. Ao descer do ônibus quis permanecer no ponto para pegar o próximo, desistiu, puxada com força pelo braço, acompanhou Ovídio até o prédio quase abandonado. Ele apertou a campainha do apartamento térreo. A porta foi aberta por uma mocinha, maquiada em excesso, estava assim aquela hora da tarde, olhou para Mirtes com desdém, quando foi empurrada para dentro do cubículo. O cômodo era limpo, mas destituído de conforto. Havia um sofá, uma mesa com duas cadeiras. A cozinha e o banheiro eram reflexo dessa escassez. Ele não poderia prendê-la para sempre – pensou Mirtes. Quando todos fossem dormir ela fugiria.

     Naquela noite teve que acompanhá-lo e para isso colocou sua melhor roupa. Não reclamou, esperaria uma oportunidade. Foram a um bar freqüentado por homens. Ambiente pouco iluminado, fumaça no ar, balcão e mesas ensebados. Conheceu Jair, cabelos crespos e loiros, lábios finos, dentes escondidos pelo sorriso. Deitou-se com ele e em troca recebeu dinheiro, metade foi para Ovídio. E assim foram mais três homens naquela noite. De manhã estava muito cansada para fugir. Com o tempo começou a mandar dinheiro para casa dentro de cartas nas quais contava poucos detalhes de sua vida: não aceitara o emprego, arranjara outro, no atual era quase autônoma. Conhecera um homem. O seu trabalho foi descoberto por um conterrâneo interessado em conhecer a zona do meretrício da cidade grande, a reconheceu e contou para uns e a notícia se espalhou na sua cidadezinha.

     Sávio viera para a capital procurar a irmã e tirar satisfações, matar aquele cafetão se fosse necessário, perseguiu o homem até a rua dos táxis, próxima a rodoviária. Não voltaria para casa de mãos limpas.

terça-feira, 16 de agosto de 2011


A DONA DO CEMITÉRIO
Pequena história juvenil
Esta história é sobre Teca e Lino. Eles resolveram pregar um susto na sua turma de amigos no dia do Halloween. Todos moravam no mesmo bairro numa rua cheia de árvores muito antigas, altas e assustadoras à noite. Sabiam muito bem disso quando resolviam andar de bicicleta quando escurecia. A mais medrosa era a Paulinha ,porque era a menor, Teca e Lino eram valentes e metidos a inteligente, Samanta e greg gostavam de aventuras e sensação de perigo, mas o máximo que faziam era andar de bicicleta de noite e ir a toda a velocidade e travar bem na beira de um barranco que existia no final da rua, se caíssem de lá, certamente ficariam super esfolados e podiam até quebrar a cabeça oca: – dizia Paulinha.
Uma semana antes da festa das bruxas que eles comemoravam como os americanos, se vestindo de monstros e passando nas casas da rua falando: - doçuras ou travessuras e ganhando um monte de doces sempre. Teca teve uma idéia para mudar um pouco a noite do halloween que para eles já era uma sensação. Havia um cemitério próximo a rua em que moravam, depois do barranco. Lá morava uma mulher que cuidava do lugar. Teca propôs a Lino: - Que tal irmos até lá pedirmos doçuras? Ele se arrepiou com a idéia ,mas não quis demonstrar para uma menina. Achava que aquela mulher que ninguém via durante o dia, só a noite, era uma alma penada. Teca disse mais: - vamos colocar no roteiro de casas a visitar a casa da zeladora do cemitério, vai ser muito emocionante. Eu vou lá falar com ela antes do dia e tu vai comigo certo? Assim preparamos tudo com bastante antecedência. Lino arregalou o olhos imaginando tudo aquilo, ir na casa da mulher fantasma, falar com ela, provavelmente teriam que ir de noitezinha... ficou em pânico, mas não iria "arregar" para aquela guria.
No outro dia às seis horas da tarde Teca apertou a campanhia da casa do Lino, ele sabia que era ela e ficou fazendo de conta que não escutou o som da porta, até que sua mãe gritou: - Lino vá atender a porta. Ele foi arrastando os pés e puxou a porta que parecia ter ficado muito pesada. Teca entrou sem ser convidada dizendo que esperariam mais um tempo, porque ainda não tinha escurecido. Que tal se andassem um pouco de bicicleta e depois iriam lá. Ele concordou pensando que aquela guria só podia ser meio louca, mas ele não ia dar uma de medroso perto dela. Até a bike parecia mais pesada quando carregou para a rua. Samanta, greg e Paulinha chegavam na frente da casa de Lino com suas bikes e todos resolveram dar umas voltas. Teca combinou de despistá-los quando fossem executar a missão. Lino balançou a cabeça concordando. Achava que estava parecendo um zumbi, sem vontade própria.
Fizeram várias voltas até despistarem os outros e quando chegaram perto do barranco desceram das bicicletas e deixaram ali, seguiram à pé até o lugar pouco iluminado. Viam luz na casinha, mas antes de chegarem lá tinham que passar entre os túmulos do pequeno cemitério. Lino já estava dando meia volta quando teca puxou seu braço. Ele virou rápido porque não sabia se era mesmo ela naquela escuridão. Ela começou a andar levando ele pelo braço. Disse: - não tenha medo, mas aquela voz não parecia com a dela e aquela mão estava muito gelada. Lino começou a tremer sem parar e a voz repetiu: - Não tenha medo. Quis se soltar mas a mão parecia de aço e apertava muito forte.
Chegaram na frente da casinha e a porta abriu antes que batessem, Lino não tinha coragem de olhar para a amiga. A casa estava vazia, sem se quer um móvel. Ouviram passos que vinham dos fundos da casa, havia um barulho que parecia um chiado. Os passos entraram na casa. Lino ficou congelado e achava que Teca estava possuída, portanto, ele estava frito. Viram o vulto preto meio luminoso aparecer na sala, antes das luzes apagarem, depois conseguiram ver só a figura fosforescente andando na sua direção. Foi quando Lino descongelou e Teca se despossuiu, porque eles correram tanto que nem lembraram das bicicletas quando passaram pelo barranco. Não olhavam para trás, mas sentiam que algo os perseguia, não por terra, havia um espectro luminoso no ar.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Pacotes mal embrulhados


Eram sete embaixo da marquise, dispostos em seqüência, da direita para a esquerda, dependendo da direção em que viesse o observador. Surgiram ali de um dia para outro, na rua lateral ao terminal dos ônibus. Havia harmonia entre a disposição deles e o cenário urbano, mas ninguém se dava ao trabalho de fazer qualquer comentário sobre a estética dos embrulhos. O vento do outono perpassava pelas frestas nas partes em que o invólucro não cobria o conteúdo imóvel. Eram quase todos do mesmo tamanho, frágeis, enrolados em texturas de vários matizes e era isto que os diferenciava. As cores mais fortes não os tornavam mais atraentes, talvez porque fossem sujos e exalassem mal cheiro. Eram invisíveis para a maioria, sumidos na paisagem, desconsiderados. Nos dias mais frios escasseavam nos lugares abertos, eram vistos nos abrigos da cidade: viadutos, pontes e prédios abandonados.Dentro dos pacotes havia seres, tinham vida própria, perambulavam pelas ruas a procura de alimentos, balbuciavam algumas palavras, talvez uma espécie de treino para não perder a habilidade da fala, e voltavam a dormir em seus casulos. Conscientes da finitude da vida. Não acreditavam em final feliz, sabiam que a história poderia acabar no meio da esperança. O ideal para todos seria que aquelas perversas instalações compostas pelo destino não surgissem cada vez mais em tantos lugares, a cada dia. Ninguém estava livre de acabar naquela condição, quem poderia garantir o contrário, de repente um desvio de caminho, falta de planejamento ou excesso de confiança na sorte. Em pouco tempo serão legiões que não se contentarão mais em ficar anestesiados dentro de invólucros desleixados.