terça-feira, 26 de maio de 2009

Aparição II – Parte final

Nunca tinha ido ao cais do porto na época do estio, o sol forte inibia a visão, ao olhar para o chão via-se entre os paralelepípedos a grama seca. Era meio dia, o lugar estava deserto. Olhou para o rio com nível bem mais baixo, dava para ver a marca anterior na mureta construída para barrá-lo. O mesmo navio ancorado há muitos anos continuava quase imóvel em estado de deterioração. Fez a incursão de sempre adivinhando que não encontraria qualquer ser vivo ou morto. Estava muito quente, seus neurônios pareciam fritar, pensava em todas as possibilidades, sentia o ar denso. Era como uma vibração que se expandia para todos os lados e para cima, como uma onda de calor. Foi até a porta do antigo bar e ao abrir a porta levou um grande susto ao ver Vicente sentado numa cadeira do velho cenário. Perdeu a noção das horas assim que a porta fechou atrás dela. A luminosidade era a mesma da noite em que entrara ali pela primeira vez. Os amigos de Vicente foram aparecendo de lugares que não conseguia ver, como se as paredes fossem as cortinas escuras de um palco. Sentavam-se em grupos nas mesas desocupadas e conversavam naturalmente. Ella e Vicente ficaram a sós. Ele falou que não queria assustá-la, mas não viu outra forma de levá-la mais uma vez ao porto. Esse lugar parece desabitado para quem não consegue ver a realidade. Nós somos muitos a ocupar essa área que não está abandonada ou inativa, nunca esteve. Poucos conseguem ver as várias manifestações da existência e você foi escolhida. Não se apavore e nem pense que sou louco. Nossa aparência é semelhante a de alguns jovens da sua idade, mas pode ser outra, num tempo passado ou futuro. Ella não estava com medo e sim com um pavor mortal, estava gelada, paralisada outra vez e com uma única pergunta a latejar na sua cabeça: O que ele queria? Se conseguisse falar, essa seria a pergunta derradeira, porque não acreditava que permaneceria viva ou lúcida. Depois de observá-la por minutos eternos disse que tinha falado o que queria e não iria mais importuná-la. Podia ir. Um dia saberia o que esperava dela. Ella saiu do estranho bar em estado catatônico. A claridade era intensa, esbranquiçada. Sentia sede, olhou para o relógio: meio dia. Por que não tinha ido para casa? A memória fragmentada não lhe dava pistas. Alguma coisa tinha acontecido, mas não queria lembrar. Foi para casa, aquele fora o último dia de aula e sabia que passara nas provas, graças a ajuda de Victor.

Viu o resultado final no dia em que inscreveu-se para o vestibular. O amigo passou para o curso de medicina e Ella não passou para psicologia. No ano seguinte voltou aos estudos para o vestibular sozinha. Era como se estivesse esquecido da aparição do corredor, não lia mais as histórias de Maupassant, mas começou a se interessar por parapsicologia.

Numa noite de inverno ao passar pela área portuária, ficou fascinada com toda a movimentação existente no lugar, mesmo com a cerração baixa que deixava o chão escorregadio, transeuntes passavam de um lado para o outro, entrando e saindo dos armazéns com as fachadas pintadas. Tudo estava mais iluminado, havia lojas, bares lotados tocando música que parecia da década de 40, com músicos usando chapéu e terno de riscado. Os barcos ancorados eram novos, inclusive o navio, estava restaurado. Para Ella tudo se passava atrás de uma espécie de cortina transparente. Senti-se seduzida por aquela imagem. Ao encaminhar-se para o rio viu Vicente estendendo a mão, convidando-a para embarcar no navio. Começava a lembrar, agora sabia o que ele queria.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Aparição II - terceira parte - Cont

Depois desse dia Ella nunca mais foi ao cais do porto. Não comentou o acontecido e até se recusava a pensar sobre aquilo que não conseguia entender. Vicente desapareceu. Começou a levar a vida de forma mais tranqüila, sem sobressaltos, dedicando-se aos estudos para as provas finais e ao concurso do vestibular. Não imaginava que voltaria a ter aquela visão no corredor do prédio em que morava. Ele estava ali. O que estava querendo? Quem era? Vicente, o homem esquilo ou um dos outros? Só poderia ser Vicente que estava querendo amedrontá-la como fez quando foi no apartamento dele. Não sabia o que fazer, não podia contar com ninguém e o que era pior, ninguém acreditaria nela. A única solução era voltar a área portuária e descobrir tudo sozinha, mesmo que isso custasse a sua vida. O medo impediu que cumprisse o seu plano, até não conseguir sair do apartamento à noite, porque na escuridão do corredor voltava a ver o espectro luminoso.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Aparição II - terceira parte

Mesmo sendo um dia de semana, Ella decidiu ir ao bar do cais do porto, a noite se insinuava fria e a cena parecia repetir-se: o lugar quase deserto e o homem esquilo cruzando o seu caminho como se estivesse atrasado para um compromisso importante. Passou direto pela porta do bar seguindo em direção ao rio. Ella achou que o lugar ainda estava fechado e forçou a porta achando que não abriria. Ficou surpresa quando ela escancarou facilmente. Apesar da escuridão pôde ver que o balcão, as mesas e cadeiras haviam sumido. Nada mais do que fora um bar estava ali. O lugar abandonado cheirava a mofo e parecia estar fechado há muito tempo. Ella não acreditava, a porta era a mesma, pintada de preto, não podia estar enganada. Andou entre outros armazéns para ter certeza e não encontrou nenhuma porta como aquela. O lugar era aquele naquele acesso ao porto, os portões eram identificados com as letras do alfabeto e o seu era o A. Olhou na direção da orla do rio e viu Vicente conversando com o homem esquilo, estavam de costas para Ella e pareciam discutir. Vicente parecia repreender Blue. Não ouviram Ella se aproximar e falavam num idioma que não conhecia. Ficou encostada na parede atrás de uma coluna e viu quando o homem esquilo caminhou em direção a um beco escuro entre as construções, seguido por Vicente. Congelou quando não conseguiu mais ver os homens ou o vulto deles e sim dois seres planando no ar, tinham uma espécie de fosforescência e emitiam um som chiado, como uma interferência elétrica. Quase desmaiou e levou muito tempo para recobrar-se e ir embora.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Aparição II - final segunda parte

O riso excessivo e quase sem som fez com que parecesse parte de uma dublagem grotesca. Ella sentia-se num daqueles cenários em que há vários espelhos que distorcem a imagem. Nada parece ser o que realmente é. A sensação de medo que só espreitava se fez presente. Não havia ali qualquer coisa que pudesse lhe dar segurança a não ser a porta da saída. Vicente levou algum tempo para parar com aquilo que mais parecia um espasmo, depois olhou para Ella e se desculpou. Mudou de assunto e passou a agir com tranquilidade e equilíbrio, mas além daquilo, ele demonstrava certa frieza e distanciamento. Quando o rapaz foi na cozinha pegar um copo de água, Ella puxou distraída o puxador da gaveta de um balcão de madeira, próximo ao sofá da sala, quando abriu, olhou sem pensar, e viu que estava vazia, uma idéia passou a habitar seus pensamentos e fez com que abrisse todas as gavetas e portas do móvel para constatar que estava vazio, antes que Vicente retornasse a sala. Depois entornou o copo de uma só vez, disse que tinha que ir encaminhando-se para porta estendendo a mão e girando a maçaneta impedida pela chave. O rapaz destrancou a fechadura. Ella saiu quase correndo. Antes de ir embora deu uma olhada para dentro do quarto em que havia apenas uma cama. Poderia apostar que Vicente não morava ali.