quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ratoeiras


                                                            
 
 


                                                                                                                                                  
      Malaquias desce apressado a alameda. Está decidido, não irá repetir mais o erro cometido em tantos anos. Pela última vez informará a Joel sua resolução. Este dirá tratar-se de uma situação sem saída, mas não o impedirá. Haviam perdido o controle das coisas, a desestruturação fazia parte do cotidiano.
     Tudo começou com o aumento populacional, incentivado pelo mito da existência de muitas áreas desabitadas. Em poucos anos as fronteiras foram derrubadas e institui-se o estado de guerrilha. Nas cidades decadentes, os bandos urbanos disputavam espaços para praticar jogos de extermínio. Os donos dos antigos oligopólios e os ditadores das regras sociais construíram o último ônibus espacial. Zarparam nele. Os apenas influentes, feudalizaram-se em propriedades campestres ou litorâneas, mas as multidões surgiram nos lugares mais remotos do planeta. Quando a água  e o ar ficaram totalmente contaminados, pareceu impossível suportar, muitos sucumbiram. Para outros foi o início da transmutação. Alguns conseguiram se  enclausurar nos andares mais altos dos prédios ainda existentes. Quando iam em busca de alimentos tinham as defesas diminuídas. As poucas áreas de plantio eram destinadas a subsistência daqueles que conseguiam defendê-las.  Malaquias só conhece este mundo. Vive dizendo ter ouvido falar das transformações. Ocorreram em menos de um século: - antigamente os alimentos eram comprados numa espécie de depósito onde ficavam expostos. As pessoas entravam e escolhiam, trocavam por tiras de papel ou escudos metálicos. Muitos não entendiam como ele sabia desses fatos e porque sempre tomava atitudes suicidas. Estava sempre espreitando os bandos urbanos ou andarilhos inconscientes para caçar e matar a fome. Continuar sobrevivendo era o grande desafio, uma espécie de aventura. Cansara daquilo e resolvera acabar com tudo de uma só vez, encontrar uma morte limpa e rápida. O que era difícil naquela época.

     Joel é o único amigo de Malaquias e um dos últimos membros do seu clã. Crê nas suas histórias e entende sua rebeldia. Quando começa a fazer presságios todos param para escutar. Querem acreditar em dias melhores e no presente transitório. Aquele era o tempo dos ajustes e redefinição do movimento das engrenagens. Agiam feito ratos desviando de armadilhas montadas.

domingo, 24 de março de 2013


A casa calada
     Depois de um ano vivendo ali, a mulher percebera que havia sentimentos escondidos atrás da pintura das paredes. Os arranjos de rosas artificiais e o quadro com as begonhas murchas deixados pela outra mulher não foram suficientes para convencê-la da existência de tanto pesar amordaçado. Quando ela chorava sem saber o motivo achava que eram as suas agruras não identificadas.
     Um dia soube que a casa sangrava de dor, que lamentava uma perda e tornava infelizes seus novos moradores. Viu o vermelho sangue borrando a tinta pastel da parede da sala e que as flores presentes no ambiente poderiam servir para um lindo arranjo fúnebre. Estavam mortas.
      Restava saber quanto tempo os sobreviventes conseguiriam viver nela. O homem e a mulher sensitiva. Ela começara a conhecer a casa silenciosa, ali não havia estalidos noturnos. Não sabia o tipo de conexão que tinham, sentia o passado daquele lugar, as mágoas vividas pela outra, apertavam o seu peito. O medo lhe acometia em horas inesperadas do dia ou da noite quando acordava molhada de suor. Olhava ao redor as paredes escondidas na penumbra e tudo se mostrava sem culpa, então rezava por ela e a casa. O lugar a absorvia e dividia com ela sua melancolia e a mulher foi se acomodando com a situação. No início se agitara, acendera incensos perfumados, colocara música na vitrola para impregná-la de felicidade. Com o tempo foi aprendendo a condição da casa.
       Havia muitas palavras e sentimentos vivos presos nas paredes, tetos e chão. Eram oportunistas esperavam pelas insatisfações diárias trazidas pelos habitantes do lugar, para como adesivos, colarem em seus corpos desprovidos e ficarem lá, até serem vistos, se não, iam formando carapaças muito resistentes em vários pontos vitais, sugando a energia rapidamente.
     Nas noites em que acordava assustada, molhada de suor, no cenário inocente, pensava se a casa já sabia dos seus sentimentos e se os transmitiria para a próxima mulher que moraria nela.