terça-feira, 23 de junho de 2009

Pablo's house - continuação

Quando o relógio digital, colocado numa das paredes do bar, zerou, foram abertas as portas da sala e o público que aguardava também fora da casa, começou a entrar. Uma música incidental entoava lamentos e gemidos, num som oscilante, como um mantra. O piso da sala coberto com folhas de árvores parecia áspero como chão de terra, estranhamente, os sapatos deslizavam nele. As paredes estavam cobertas por plantas trepadeiras, algumas pessoas viram lagartixas correrem entre as folhas. A sensação era de que tinham saído e não entrado em algum lugar. No teto da sala estava projetado um céu cinza, as nuvens se movimentando para desabarem em chuva. Alguns ficaram confusos achando que não havia cobertura acima de suas cabeças. A sensação era de expectativa. Parecia que a qualquer momento iria ocorrer algo. O medo foi contagiando a todos e transformando-se em energia, misturada ao som tecno. Muitos passaram a pedir aos garçons, bebidas fortes.
Bonnie dançava e a todo momento olhava para trás. Sentia um arrepio nas costas. Poderia ser o ar gelado que vinha do corredor que levava aos banheiros. Patrícia conhecera um tal de Syd, entraram juntos num dos corredores subterrâneos que levava aos toaletes e não voltaram. O homem grisalho sentado no bar não parava de olhar para ela. Era alto, magro e deveria ter uns cinqüenta anos. Ela impacientava-se com a demora da amiga e a hesitação do homem do bar. Será que aceitaria se o convidasse para dançar? Não iria atrás da amiga naquele corredor sombrio. Não sentia-se a vontade naquele lugar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pablo's house - continuação

Pablo chegou em casa apressado. Deveria retornar ao trabalho em alguns minutos. Tinha tempo para tomar banho e trocar de roupa. Naquele sábado inaugurava sua casa noturna. Planejara durante muitos anos. Custou a achar a casa certa. Esta contava mais de um século de existência e se parecia com a que morara na infância: muitos quartos, passagens secretas e corredores subterrâneos. Transportou todos os móveis e antiguidades de seu pais de origem e mandou construir cenários para a decoração dos ambientes destinados ao público. A outra parte da casa seria privativa e lá colocaria a antiga mobília e os objetos sagrados. Pablo aparentava ter uns cinqüenta anos, O cabelo espesso grisalho parecia precoce. Era magro, alto, determinado e de olhar confiável.


As portas da casa seriam abertas ao público a partir das onze horas da noite. O acesso a sala da pista de dança, seria liberado a meia-noite. O bar era uma espécie de ante-sala. Paredes despretensiosas e claras. O cenário era desprovido de excessos, somente o neon roxo contornando as palavras: Pablo’s bar. Os garçons e garçonetes com olhos delineados de preto vestiam smoking. A vasta sala ao lado seria introduzida através da porta dupla revestida de napa branca. Havia uma eletricidade, um movimento pulsante, como se os objetos e ornamentos dentro dela ansiassem por interagir com as diversas vidas que logo a habitariam por algumas horas, certamente as mais vibrantes.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

PABLO'S HOUSE

Amanhece, é início de outono, mas as noites ainda estão quentes. Os dias chuvosos deixam de legado uma umidade pegajosa. Atrás do cipreste, a lua desapareceu e o dia se apresenta mais uma vez nublado. O centro da cidade está deserto. É domingo. Seis horas. Em uma hora o sino da catedral soará avisando da primeira missa. Perséfone observa da janela do apartamento a praça com alguns vagabundos adormecidos nos bancos e a silueta do prédio da igreja. Puxa a cortina para manter a luminosidade fora do quarto. Estivera naquela noite em três lugares e conhecera duas pessoas. Syd e Bonnie. Ela ficou ligada a eles por uma estranha intimidade. Agora sente-se enfraquecida. Está no estágio posterior ao da fome mobilizadora. Não tem forças para se alimentar. Precisa dormir.
Syd colocou a calça preta surrada e olhou-se no espelho do banheiro confiante de sua bela aparência. Sempre se dava bem quando saia para a caça. Alto, cabelos tingidos num tom ferrugem, picotados. Os olhos eram acinzentados e vasculhadores. Era noite de sábado, preparava-se para dar uma volta pelas danceterias da cidade, como fizera na sexta-feira. Estava a procura de um determinado tipo de pessoa e sabia aonde encontrá-las. Faltavam alguns minutos para as onze da noite e Syd começou a sentir-se fraco, a pressão baixou e as mãos gelaram. Precisava sair rápido. Olhou em volta, as paredes do apartamento giravam. Sentou-se na poltrona. Levantou-se a atravessou a sala indo em direção a cozinha asséptica. Abriu a geladeira quase vazia, pegou a garrafa de água e tomou no gargalo um grande gole. Não sentiu-se melhor. Algo corroia o seu estômago. Resolveu sentar e esperar o sintoma passar, sempre passava.
Bonnie abriu a agenda na letra PE. Olhou para o primeiro nome da lista e ligou para Paulo. O telefone tocou e ninguém atendeu. Voltou ao caderninho e passou o dedo no segundo nome e ligou para Patrícia que era o terceiro. Ela atendeu e disse estar saindo para a inauguração de uma danceteria , achava que seria a nova atração da cidade, porque a decoração era toda baseada em cenários de filme de terror. Ficava numa velha casa situada no bairro mais antigo. Bonnie anotou o endereço. Passaria lá antes da meia-noite.