sábado, 28 de janeiro de 2012


Adoradores de túmulos

       Eles adoravam artistas que se tornaram famosos por causa do seu talento e estilo de vida,  eram mitos mortos, foram enterrados em lugares e épocas diferentes, homens e mulheres. Os adoradores eram um grupo também misto no que se refere ao gênero, mas as idades eram próximas e tenras. Achavam que eram viajantes do passado que encontraram uma brecha no tempo que os trouxe para o futuro, eram nostálgicos, gostavam de roupas antigas e da época do romantismo literário. Não se consideravam góticos,mas gostavam de visitar cemitérios e  realizar saraus noturnos, como não podiam ir ao túmulo de cada ídolo, faziam suas homenagens em qualquer “campo santo” evocando personagens finadas. Cultuavam Álvares de Azevedo, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Amy Winehouse, não parecia haver critério na classificação, apenas seguiam suas emoções. Não elegeram Kurt Cobain, porque a votação não foi unânime, alguns acharam que faltou a ele um discurso coerente, um pouco mais de clareza e carisma. O fato era que pareciam a todos, inclusive aos seus familiares, pessoas assustadoras e perturbadas. Eram pálidos em plena adolescência, não comiam carne, eram adeptos da frugalidade regada a vinho.  Vistos como bêbados perdidos, obsessivos e delirantes ironicamente, conseguiam acompanhar seus estudos escolares e eram até brilhantes, além da literatura.
  Felippa era bela como uma pintura renascentista, a pele  alva como a das mulheres contadas nas noites da taverna, o cabelo pintado de preto azulado e a boca no tom nude. Não valorizava só a estética, a superficialidade das coisas e pessoas, preferia a intenção, o conteúdo. Tirava notas altas  de forma protocolar. Achava os professores desinteressantes. Gostava das noites de lua minguante, de andar pelas calçadas desertas e da reação que provocava em algum transeunte solitário tarde da noite. Conheceu Maria quando resolveu uma noite pular o muro do cemitério, viu a outra tentando ler as inscrições de uma lápide, pensou que fosse uma aparição e ficou feliz por finalmente ver uma. A decepção veio quando Maria sem  jeito se desculpou achando que estava olhando o túmulo de algum familiar da outra. Quando o mal entendido se desfez perceberam sua afinidade, sem marcar encontros, passaram a se ver, depois de longas conversas sobre escritores, começaram a levar os livros, depois as velas para poderem enxergar os textos que liam para os mortos e a lua. Uma noite encontraram Byron, Ricardo, Lúcio e Beatriz. Estavam fazendo um sarau. Havia uma toalha estendida numa das construções planas do lugar, com frutas, pão,Queijo e vinho. Convidaram  as duas para participar e assim começou a amizade. Se alguém não soubesse dessa história, diria que eles se conheciam há muito tempo, porque combinavam, eram amigos de outras  épocas. Byron era o mais revoltado dos quatro personagens encontrados, falava de forma irônica, num tom acido e não tinha paciência com equívocos, incertezas, mesmo que estivesse errado, afirmava com veemência e em voz alta, quase amedrontadora. Ele usava roupas do  século XVIII, além da calça e capa pretos, vestia a camisa branca e o colete bordado como um fino brocado. Ricardo e Lúcio pareciam simpatizar com a década de setenta vestiam jeans rasgados e camisetas escuras, eram afáveis de modos diferentes. Beatriz era misteriosa, falava pouco, observava muito, mas  seus olhos sempre diziam tudo. Os cabelos lustrosos como crina de cavalo e a pele num matiz marrom escuro, parecia uma indígena lendária, vestida à la Joplin.  
     Fellipa e Maria sentaram-se no chão junto aos outros e serviram-se das comidas da mesa improvisada, tomaram o vinho saboroso e sentiram-se em casa. Sabiam que aquele modo de viver não era uma fase de suas existências, continuariam estranhos na velhice se vivessem até lá.  Sofriam do mesmo mal, a melancolia, que é a necessidade que o espírito tem de se libertar do corpo que o mantém prisioneiro. Deixariam aquele corpo mais de uma vez e vestiriam outros, em moldes folgados ou justos. Era condição do ser.