segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Essência

As calçadas ainda estão molhadas, as pessoas conversam nas portas de suas casas e prédios, enquanto a chuva dá uma trégua. Uma mulher fala animadamente com um homem velho e de voz experiente. No horizonte, o sol quer despontar ainda, no final de tarde. Alguém olha pela janela num espaço entreaberto na cortina. Acabara de acordar, a peça permanece escura. Não conseguira dormir a noite toda, sofria de insônia. Era assim, um ser notívago. Despertara com a barulhada alegre dos pássaros que habitavam o coqueiro antigo próximo a sua janela. Um vento qualquer, um pouco mais forte poderia derrubá-lo. Não saia em noites de chuva, preferia as frias e os dias cinzas e secos. Levanta, apesar das dores nas pernas e braços. Sentia o efeito da última batalha. Vivia das guerras travadas com os transgressores de vida noturna. Não lembrava se tivera uma família e nem tinha pessoas próximas. Um dia, como numa espécie de pesadelo, acordou ali naquela cama no quarto envolto na penumbra. Nunca mais voltou para onde quer que estivesse. Por instinto, soube das suas necessidades de sobrevivência. Na primeira noite fria saiu para caçar pequenos animais roedores, não lhe saciaram a fome. Foi quando começou a matar aqueles que viviam nas esquinas e becos escuros, escondidos por algum motivo. Aqueles de quem ninguém reclamaria o desaparecimento. Tinham em comum um histórico de origem duvidoso e incursões na marginalidade. Eram cúmplices. A noite era um tempo no qual sentia pulsar sua única vontade. Os cheiros invadiam seu olfato profundo, ouvia alto o bater do coração de suas vitimas. Rejuvenescia quando absorvia a essência invisível que animava os corpos que se debatiam, antes, de serem mastigados seus órgãos quentes e vibrantes.