terça-feira, 27 de outubro de 2015

Bromas

      Naquela manhã os meninos resolveram trancar as meninas dentro da sala de aula, para isso,  enviaram os nerds  à sala da coordenação de disciplina para pegar uma cópia da chave no armário.  Atraíram elas mostrando um vídeo no telefone de Cássio - Ele afirmou que dera uns amassos na Brenda, a menina mais popular da sala, atrás do prédio do laboratório de ciências. Quando todas estavam agrupadas para ver o vídeo falso, eles saíram e trancaram a porta.  Correram para fora da sala, carregando a sensação de vitória. Enquanto riam do que haviam aprontado, o estrondo tomou conta de todo o andar. A explosão aconteceu no andar abaixo,na cozinha, destruindo o corredor do andar em que estavam e o fogo foi ocupando todos os cantos inflamáveis. A sala ficou intacta com a porta de madeira fechada. Os meninos viraram urdidura no meio da destruição. As meninas entretidas procurando no telefone as imagens, correram  para a porta quando ouviram o barulho, não conseguiram abri-la. Foram para as janelas e viram o fogo escalando as paredes. Não tinham idéia de que o prédio estava quase todo destruído, ficaram só uma sala no térreo e no primeiro andar que sustentavam aquela em que estavam. A únicas saídas eram as janelas basculantes com os vidros quebrados pela explosão. Quando conseguiram passar pela abertura estreita viram que o fogo tomara conta dos andares de baixo e a fumaça sufocava. Voltaram. Alguém lá fora gritou que os bombeiros estavam chegando. Se acalmassem. A escola estava sendo evacuada, do outro lado da calçada, depois da faixa de segurança foram se aglomerando expectadores. As meninas abraçadas choravam e rezavam para que os meninos voltassem e abrissem a porta já sendo consumida pelas labaredas. Não desconfiavam que não havia mais nenhum deles para fazer isso. Claudia ligou para Rômulo. O telefone no silencioso, tocou dentro da mochila na sala de aula. A fumaça tomou conta de tudo antes que o fogo chegasse.
    Depois de alguns anos, outro prédio foi construído no mesmo lugar, e a cozinha foi transferida para uma nova construção. Havia uma sala de aula no lugar da anterior: pintada de branco, assim como o quadro, classes e cadeiras modernas, mas os alunos ali presos ao passado, viam uma sala mobiliada com as velhas classes verdes de fórmica, o quadro negro, o armário de madeira no fundo da sala e nas janelas de basculantes, cortinas azul escuro. Acabara, mais uma vez, a aula de história com a professora Agatha, terminariam as aulas da manhã na quadra de esportes na educação física. Os meninos num canto reunidos combinavam algo e as meninas ainda sentadas nos seus lugares desconfiavam ser alguma brincadeira, observavam curiosas tentando adivinhar o que eles iriam aprontar, mesmo os mais comportados eram convocados para essas reuniões e eram forçados à cumplicidade. Resistiam aos jogos de sedução de Cláudia quando se aproximava tentando escutar o assunto discutido. Rômulo usava de seus talentos para afastá-la, rapaz de corpo atlético e esguio da natação, abraçava a moça e a levava para longe. Ela ia, gostando da atenção recebida. Não era à toa que todas as manhãs se dedicava a produção: jeans de grife, botas brilhantes, cabelos despenteados após o babylise e a maquiagem. Destoava das outras, mais novas, optavam pelo jeans, camiseta e sapatilhas ou tênis. Terminada a reunião um grupo aproximou-se das meninas reunidas na outra extremidade da sala. Adônis disse: - Olha só, viralizou na rede uma parada com a Brenda e o Cássio atrás do laboratório de ciências. As meninas se entreolharam. Samantha de porta voz: - Duvido que ela ficaria com aquele nerd! Ele com o telefone na mão finge procurar o vídeo e depois localizar, entrega o aparelho para a menina. Imediatamente todas formaram um circulo com a Samantha no centro. Os meninos começaram a sair da sala sem fazer ruído, Rômulo o último da fila, trancou a porta. Saíram correndo pelo corredor do prédio, coração batendo forte e a sensação de liberdade.







sábado, 18 de outubro de 2014

Bolha de Calor




 

      

      A temperatura estava muito alta para a estação, primavera tórrida, sensação térmica de quarenta e sete graus. A bolha de calor se formara devido ao fortalecimento do ar seco na atmosfera, caprichos do El niño. A poluição exigia esforço para respirar. Os olhos lacrimejavam e o nariz ardia. A população da grande cidade já sofria as conseqüências do número excessivo de veículos nas ruas. A mobilidade era o problema e o rodízio dos carros nas avenidas a solução provisória.
      A  calamidade era iminente e pública, faltava água, há meses não chovia.
      Até para aqueles que viviam nos subterrâneos da cidade a seca estava afetando suas vidas e seu habitat já sofria modificações. A secura já invadia os cantos escondidos pela escuridão. Quando saiam à noite para caçar o bafo quente aderia  suas peles sensíveis e a fumaça no ar tornava o cenário ideal para aqueles que necessitam de discrição, mas com o calor diminuíram o tempo dedicado a busca de alimentos. Percorriam os lugares nos quais estavam concentrados maior número de desprotegidos, velhos mendigos, crianças abandonadas, prostitutas e até viciados. Adotavam a tática da abordagem relâmpago, tinham facilidade para se deslocarem, eram esguias e na claridade ficavam invisíveis, devido a pele translúcida. Nos prédios abandonados, habitados pelos viciados, eram confundidos com fantasmas ou efeito das substâncias usadas por aqueles que se tornavam vítimas. Seus corpos eram carregados depois da primeira mordida na jugular, quando sentiam os dentes penetrando suas partes adormecidas já era tarde. Eram devorados em lugares escondidos nos subterrâneos e jamais imaginados por qualquer morador dos espaços urbanos conhecidos. Das poucas vezes em que a vítima era alguém com residência fixa, emprego, pertencente a classe média, as investigações policiais não solucionaram tais desaparecimentos.
      Os translúcidos eram seres invisíveis, “inexistentes” e úteis. Eram responsáveis pelo equilíbrio populacional. Tiravam das ruas uma parcela da população que ninguém queria ou reclamava. Passaram por um processo de mutação. Foram um dia os desvalidos das ruas, até que decidiram ocupar as galerias abaixo do nível das edificações da cidade e matar humanos para comer. E as outras gerações nasceram com características diferenciadas e aos poucos a pele foi ficando transparente, os olhos sem coloração e a constituição física longilínea. Acreditavam que eram um  mecanismo de controle divino.
      No passado houve relatos de moradores de rua sobre homens transparentes surgidos de lugares de acesso as galerias do subsolo. Ninguém deu crédito a essas histórias, possíveis resultados de alucinações.  Foram publicadas em jornais sensacionalistas como texto folclórico.
       Em tempos de escassez e aumento populacional, as medidas emergenciais eram necessárias e os mecanismos criados pela natureza, dádiva. Se os translúcidos não sobreviverem a crescente secura planetária, se não se modificarem mais uma vez, certamente haverá um novo movimento de acomodação da vida.

    

    

  
 
 

Em Carne Viva

                                                              
                                                                        Em Carne Viva

     O que dizer dessas pessoas que sentem que não se encaixam nas ações cotidianas? Não conseguem sentir da mesma forma aquilo que os outros sentem em relação a diversão, visão de mundo...
      São extraterrestres, não são vistos como tal, mas essa sensação lhes habita. Conseguem de forma mimética fazer parte, muitas vezes, nem são descobertos, só se declararem ou tiverem qualquer crise existencial grave.
     Transitam pelos shoppings, parques, supermercados e clínicas psiquiátricas( porque alguém constatou que só esses especialistas conseguiriam tratá-los).
      Admiram a praticidade de algumas pessoas que tomam decisões rápidas, assim como arrumam malas de viagens eficazes, o necessário e ainda conseguem variar trajes. Não têm  dentro de si aquele buraco grande e sem fundo, cheio de coisas desconhecidas que provocam a sensação de desconforto, estranhamento, tristeza inerente.
     Acham que uma boa roupa, um cabelo arrumado e uma maquiagem discreta podem esconder seus sentimentos profundos. São muitas vezes amáveis, afetivos e calorosos. Capazes de promover as qualidades alheias, mas não sabem receber demonstrações de agradecimento ou retribuições. Isso os amedronta.
     Preferem observar a atuar. Mesmo quando interpretam bem ou de forma razoável, fazem isso só por sobrevivência. E quando se expõem demais passam longos períodos reclusos se auto- abastecendo.
      Eles fazem parte de uma outra categoria de ser humano, ainda incompreendida, em estágio de estudo. Estão em todas as áreas profissionais, muitos são artistas, atuantes ou frustrados. Estão por aí, escondendo sua dor, ninguém enxerga, eles olham todos os dias partes suas expostas a sangrar. São invisíveis para os outros. Nem aqueles que se parecem enxergam o apêndice defeituoso que lateja no semelhante. Eles têm a fraqueza de desconsiderar o que lhes dói.
      Débora era assim. Atriz de um grupo de teatro amador, vinte anos de idade. Trabalhava como recepcionista num estúdio de tatuagem para se manter. Não possuía qualquer desenho no corpo ou acessório. Achava que deveria manter o corpo íntegro para os personagens futuros. O namorado tatuado dizia que iria vender sua pele quando morresse, o dinheiro ficaria para ela. Moravam juntos num pequeno apartamento. Muitas vezes, ela sentia que pareciam mais colegas que dividiam despesas do que um casal romântico. Ela pretendia morar em outro lugar, cidade maior em que houvesse mais oportunidades para a sua carreira. Fernando poderia ficar para sempre ali. Trabalhava  no que gostava e sempre haveria pessoas querendo se tatuar. Uma noite eles se encontraram no “ressaca”, ela olhando para as pessoas que passavam na calçada falou, enquanto Fernando fazia sinal ao garçom pedindo a cerveja: - Não pretendo ficar muito tempo por aqui.
      Ele desprevenido respondeu: - Aqui aonde? No bar ou no bairro?
     Débora olhando para um labrador que urinava no tronco de uma árvore na calçada, respondeu: - Nesta cidade. É muito pequena para os meus planos.
      Como é que ele nunca soubera daqueles planos? Sentia-se traído, surpreso.   
       - Que planos são esses tão mirabolantes? questionou Fernando.
       - Tu sabes que o mercado de trabalho aqui é quase inexistente. Disse Fernanda.
       - Mas existem muitos tatuadores e tu não ficaria sem emprego.
       - Fernando, eu estou falando na minha carreira de atriz. Disse irritada.
       - Mas eu sempre pensei que era apenas um lazer, terapia, sei lá... Concluiu ele.
       - Então tu achas que eu estou tentando vestibular para teatro há dois anos, só de brincadeira? Perguntou perplexa.
       - Achei que era só um entusiasmo. Respondeu Fernando com a sensação de que as coisas poderiam ser mais sérias do que imaginara.
      Não tocaram mais no assunto nas semanas seguintes, mas ele sempre lembrava da frase que ela dissera ao encerrar a conversa – Iria agarrar a primeira oportunidade que surgisse.
      Quando a empresa promotora de eventos anunciou a contratação de atores para a participação num filme, Débora fez a inscrição, assim como todos os colegas do teatro amador. Fez o teste e não contou para Fernando. Contaria se o resultado fosse positivo. Esperou  duas semanas para saber que ela e um colega foram selecionados. Começariam as filmagens no mês  seguinte em outro país. Ao saber da novidade ela não conseguiu gritar, pular, correr ou gargalhar como muitos fazem. Ficou pensando se aquilo era realmente o que queria, o pânico começou a se instalar, mas foi aos poucos se acalmando ao lembrar que a vida estava conduzindo tudo aquilo. Marcou um encontro com Fernando no “ressaca”, ele gostava do bife à parmegiana de lá, o jantar seria uma despedida, ao menos do seu trabalho e moradia. Contou a ele os últimos acontecimentos com algum cuidado. Iria relatar uma situação já definida.
      Fernando escutou sem demonstrar reação. Por dentro estava confuso e desapontado.
      Débora viajaria no final daquela semana, combinara a volta assim que pudesse. O país era próximo do Brasil, eles poderiam se encontrar. Ele achou que ela estava saindo de sua vida. Não pretendia morar em outro lugar caso ela se arranjasse em outro estado ou país. Sua vida era ali no bairro boêmio vivendo das tatuagens.
      Débora foi e não voltou a morar mais na pequena cidade trocou-a por uma metrópole. Passou a conviver com o sucesso e pessoas do cenário artístico. Eles viviam num mundo, realidade esfumaçada, anestesiados. Nenhum entendia quando falava naquele vazio, buraco fundo que o prestígio não preencheu. Nunca se encontrou com outros semelhantes a ela, talvez fosse um grupo secreto ou preferiam ficar anônimos, blindados numa espécie de escudo formado por drogas químicas ou naturais.
       Fernando sentia falta de Débora. Pararam de conversar, por causa de várias desculpas, mais dela, que vivia sem tempo. Decidiu permanecer  sozinho, com relações esporádicas, levado mais pela amizade, afinidades do que sentimento arrasador. Achava que um dia ela cansaria da vida que a levara dali e voltaria. Assim poderiam envelhecerem juntos.

 

 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ratoeiras


                                                            
 
 


                                                                                                                                                  
      Malaquias desce apressado a alameda. Está decidido, não irá repetir mais o erro cometido em tantos anos. Pela última vez informará a Joel sua resolução. Este dirá tratar-se de uma situação sem saída, mas não o impedirá. Haviam perdido o controle das coisas, a desestruturação fazia parte do cotidiano.
     Tudo começou com o aumento populacional, incentivado pelo mito da existência de muitas áreas desabitadas. Em poucos anos as fronteiras foram derrubadas e institui-se o estado de guerrilha. Nas cidades decadentes, os bandos urbanos disputavam espaços para praticar jogos de extermínio. Os donos dos antigos oligopólios e os ditadores das regras sociais construíram o último ônibus espacial. Zarparam nele. Os apenas influentes, feudalizaram-se em propriedades campestres ou litorâneas, mas as multidões surgiram nos lugares mais remotos do planeta. Quando a água  e o ar ficaram totalmente contaminados, pareceu impossível suportar, muitos sucumbiram. Para outros foi o início da transmutação. Alguns conseguiram se  enclausurar nos andares mais altos dos prédios ainda existentes. Quando iam em busca de alimentos tinham as defesas diminuídas. As poucas áreas de plantio eram destinadas a subsistência daqueles que conseguiam defendê-las.  Malaquias só conhece este mundo. Vive dizendo ter ouvido falar das transformações. Ocorreram em menos de um século: - antigamente os alimentos eram comprados numa espécie de depósito onde ficavam expostos. As pessoas entravam e escolhiam, trocavam por tiras de papel ou escudos metálicos. Muitos não entendiam como ele sabia desses fatos e porque sempre tomava atitudes suicidas. Estava sempre espreitando os bandos urbanos ou andarilhos inconscientes para caçar e matar a fome. Continuar sobrevivendo era o grande desafio, uma espécie de aventura. Cansara daquilo e resolvera acabar com tudo de uma só vez, encontrar uma morte limpa e rápida. O que era difícil naquela época.

     Joel é o único amigo de Malaquias e um dos últimos membros do seu clã. Crê nas suas histórias e entende sua rebeldia. Quando começa a fazer presságios todos param para escutar. Querem acreditar em dias melhores e no presente transitório. Aquele era o tempo dos ajustes e redefinição do movimento das engrenagens. Agiam feito ratos desviando de armadilhas montadas.

domingo, 24 de março de 2013


A casa calada
     Depois de um ano vivendo ali, a mulher percebera que havia sentimentos escondidos atrás da pintura das paredes. Os arranjos de rosas artificiais e o quadro com as begonhas murchas deixados pela outra mulher não foram suficientes para convencê-la da existência de tanto pesar amordaçado. Quando ela chorava sem saber o motivo achava que eram as suas agruras não identificadas.
     Um dia soube que a casa sangrava de dor, que lamentava uma perda e tornava infelizes seus novos moradores. Viu o vermelho sangue borrando a tinta pastel da parede da sala e que as flores presentes no ambiente poderiam servir para um lindo arranjo fúnebre. Estavam mortas.
      Restava saber quanto tempo os sobreviventes conseguiriam viver nela. O homem e a mulher sensitiva. Ela começara a conhecer a casa silenciosa, ali não havia estalidos noturnos. Não sabia o tipo de conexão que tinham, sentia o passado daquele lugar, as mágoas vividas pela outra, apertavam o seu peito. O medo lhe acometia em horas inesperadas do dia ou da noite quando acordava molhada de suor. Olhava ao redor as paredes escondidas na penumbra e tudo se mostrava sem culpa, então rezava por ela e a casa. O lugar a absorvia e dividia com ela sua melancolia e a mulher foi se acomodando com a situação. No início se agitara, acendera incensos perfumados, colocara música na vitrola para impregná-la de felicidade. Com o tempo foi aprendendo a condição da casa.
       Havia muitas palavras e sentimentos vivos presos nas paredes, tetos e chão. Eram oportunistas esperavam pelas insatisfações diárias trazidas pelos habitantes do lugar, para como adesivos, colarem em seus corpos desprovidos e ficarem lá, até serem vistos, se não, iam formando carapaças muito resistentes em vários pontos vitais, sugando a energia rapidamente.
     Nas noites em que acordava assustada, molhada de suor, no cenário inocente, pensava se a casa já sabia dos seus sentimentos e se os transmitiria para a próxima mulher que moraria nela.

sábado, 28 de janeiro de 2012


Adoradores de túmulos

       Eles adoravam artistas que se tornaram famosos por causa do seu talento e estilo de vida,  eram mitos mortos, foram enterrados em lugares e épocas diferentes, homens e mulheres. Os adoradores eram um grupo também misto no que se refere ao gênero, mas as idades eram próximas e tenras. Achavam que eram viajantes do passado que encontraram uma brecha no tempo que os trouxe para o futuro, eram nostálgicos, gostavam de roupas antigas e da época do romantismo literário. Não se consideravam góticos,mas gostavam de visitar cemitérios e  realizar saraus noturnos, como não podiam ir ao túmulo de cada ídolo, faziam suas homenagens em qualquer “campo santo” evocando personagens finadas. Cultuavam Álvares de Azevedo, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Amy Winehouse, não parecia haver critério na classificação, apenas seguiam suas emoções. Não elegeram Kurt Cobain, porque a votação não foi unânime, alguns acharam que faltou a ele um discurso coerente, um pouco mais de clareza e carisma. O fato era que pareciam a todos, inclusive aos seus familiares, pessoas assustadoras e perturbadas. Eram pálidos em plena adolescência, não comiam carne, eram adeptos da frugalidade regada a vinho.  Vistos como bêbados perdidos, obsessivos e delirantes ironicamente, conseguiam acompanhar seus estudos escolares e eram até brilhantes, além da literatura.
  Felippa era bela como uma pintura renascentista, a pele  alva como a das mulheres contadas nas noites da taverna, o cabelo pintado de preto azulado e a boca no tom nude. Não valorizava só a estética, a superficialidade das coisas e pessoas, preferia a intenção, o conteúdo. Tirava notas altas  de forma protocolar. Achava os professores desinteressantes. Gostava das noites de lua minguante, de andar pelas calçadas desertas e da reação que provocava em algum transeunte solitário tarde da noite. Conheceu Maria quando resolveu uma noite pular o muro do cemitério, viu a outra tentando ler as inscrições de uma lápide, pensou que fosse uma aparição e ficou feliz por finalmente ver uma. A decepção veio quando Maria sem  jeito se desculpou achando que estava olhando o túmulo de algum familiar da outra. Quando o mal entendido se desfez perceberam sua afinidade, sem marcar encontros, passaram a se ver, depois de longas conversas sobre escritores, começaram a levar os livros, depois as velas para poderem enxergar os textos que liam para os mortos e a lua. Uma noite encontraram Byron, Ricardo, Lúcio e Beatriz. Estavam fazendo um sarau. Havia uma toalha estendida numa das construções planas do lugar, com frutas, pão,Queijo e vinho. Convidaram  as duas para participar e assim começou a amizade. Se alguém não soubesse dessa história, diria que eles se conheciam há muito tempo, porque combinavam, eram amigos de outras  épocas. Byron era o mais revoltado dos quatro personagens encontrados, falava de forma irônica, num tom acido e não tinha paciência com equívocos, incertezas, mesmo que estivesse errado, afirmava com veemência e em voz alta, quase amedrontadora. Ele usava roupas do  século XVIII, além da calça e capa pretos, vestia a camisa branca e o colete bordado como um fino brocado. Ricardo e Lúcio pareciam simpatizar com a década de setenta vestiam jeans rasgados e camisetas escuras, eram afáveis de modos diferentes. Beatriz era misteriosa, falava pouco, observava muito, mas  seus olhos sempre diziam tudo. Os cabelos lustrosos como crina de cavalo e a pele num matiz marrom escuro, parecia uma indígena lendária, vestida à la Joplin.  
     Fellipa e Maria sentaram-se no chão junto aos outros e serviram-se das comidas da mesa improvisada, tomaram o vinho saboroso e sentiram-se em casa. Sabiam que aquele modo de viver não era uma fase de suas existências, continuariam estranhos na velhice se vivessem até lá.  Sofriam do mesmo mal, a melancolia, que é a necessidade que o espírito tem de se libertar do corpo que o mantém prisioneiro. Deixariam aquele corpo mais de uma vez e vestiriam outros, em moldes folgados ou justos. Era condição do ser.




    

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


Reveses



     O mais velho apanhava e não reagia, usava os braços como escudo, o mais novo e mais forte batia sem demonstrar remorso. Os transeuntes paravam para olhar, os motoristas de táxi  faziam uma espécie de torcida organizada, se animavam e quase apostaram quando o mais velho pegou uma pedra para atirar no outro. Na rua estreita do centro da cidade, existiam garagens e terminais de ônibus. Os que passavam ficavam revoltados ao ver o mais velho apanhando, não imaginavam  o início daquela história.

     Tudo começou na época em que Mirtes chegou na cidade em busca de emprego, deixara o filho pequeno na cidade do interior com a mãe e o irmão caçula. Veio com a recomendação feita num bilhete manuscrito pela dona da farmácia, enviado para a irmã que morava na cidade grande e precisava de uma doméstica. O endereço, anotado no mesmo papel da apresentação, amassado e úmido do suor na mão aflita. Ao descer na rodoviária sem saber para onde seguir teve a sorte de encontrar Ovídio, muito prestativo, se ofereceu para ajudá-la, generoso, pagou um lanche apesar de sua recusa, antes de pegarem o ônibus que os levaria ao endereço escrito no pedaço de folha. Mirtes era uma jovem mulher, não chegara aos trinta anos,os cabelos escuros trazia preso no alto da cabeça num “rabo de cavalo” divertido, vestia: saia e blusa. Levava um casaquinho na mão, prevenida das baixas temperaturas da primavera. Olhava diretamente nos olhos fugidios de Ovídio cada vez que ele falava.

     Começou a suspeitar de que estava indo para um lugar bem diferente do descrito no endereço antes de desembarcar. O bairro de ruas estreitas e prédios antigos, vários deles abandonados, não era passagem para nenhum condomínio de casas luxuosas. Ao descer do ônibus quis permanecer no ponto para pegar o próximo, desistiu, puxada com força pelo braço, acompanhou Ovídio até o prédio quase abandonado. Ele apertou a campainha do apartamento térreo. A porta foi aberta por uma mocinha, maquiada em excesso, estava assim aquela hora da tarde, olhou para Mirtes com desdém, quando foi empurrada para dentro do cubículo. O cômodo era limpo, mas destituído de conforto. Havia um sofá, uma mesa com duas cadeiras. A cozinha e o banheiro eram reflexo dessa escassez. Ele não poderia prendê-la para sempre – pensou Mirtes. Quando todos fossem dormir ela fugiria.

     Naquela noite teve que acompanhá-lo e para isso colocou sua melhor roupa. Não reclamou, esperaria uma oportunidade. Foram a um bar freqüentado por homens. Ambiente pouco iluminado, fumaça no ar, balcão e mesas ensebados. Conheceu Jair, cabelos crespos e loiros, lábios finos, dentes escondidos pelo sorriso. Deitou-se com ele e em troca recebeu dinheiro, metade foi para Ovídio. E assim foram mais três homens naquela noite. De manhã estava muito cansada para fugir. Com o tempo começou a mandar dinheiro para casa dentro de cartas nas quais contava poucos detalhes de sua vida: não aceitara o emprego, arranjara outro, no atual era quase autônoma. Conhecera um homem. O seu trabalho foi descoberto por um conterrâneo interessado em conhecer a zona do meretrício da cidade grande, a reconheceu e contou para uns e a notícia se espalhou na sua cidadezinha.

     Sávio viera para a capital procurar a irmã e tirar satisfações, matar aquele cafetão se fosse necessário, perseguiu o homem até a rua dos táxis, próxima a rodoviária. Não voltaria para casa de mãos limpas.