sábado, 18 de outubro de 2014

Bolha de Calor




 

      

      A temperatura estava muito alta para a estação, primavera tórrida, sensação térmica de quarenta e sete graus. A bolha de calor se formara devido ao fortalecimento do ar seco na atmosfera, caprichos do El niño. A poluição exigia esforço para respirar. Os olhos lacrimejavam e o nariz ardia. A população da grande cidade já sofria as conseqüências do número excessivo de veículos nas ruas. A mobilidade era o problema e o rodízio dos carros nas avenidas a solução provisória.
      A  calamidade era iminente e pública, faltava água, há meses não chovia.
      Até para aqueles que viviam nos subterrâneos da cidade a seca estava afetando suas vidas e seu habitat já sofria modificações. A secura já invadia os cantos escondidos pela escuridão. Quando saiam à noite para caçar o bafo quente aderia  suas peles sensíveis e a fumaça no ar tornava o cenário ideal para aqueles que necessitam de discrição, mas com o calor diminuíram o tempo dedicado a busca de alimentos. Percorriam os lugares nos quais estavam concentrados maior número de desprotegidos, velhos mendigos, crianças abandonadas, prostitutas e até viciados. Adotavam a tática da abordagem relâmpago, tinham facilidade para se deslocarem, eram esguias e na claridade ficavam invisíveis, devido a pele translúcida. Nos prédios abandonados, habitados pelos viciados, eram confundidos com fantasmas ou efeito das substâncias usadas por aqueles que se tornavam vítimas. Seus corpos eram carregados depois da primeira mordida na jugular, quando sentiam os dentes penetrando suas partes adormecidas já era tarde. Eram devorados em lugares escondidos nos subterrâneos e jamais imaginados por qualquer morador dos espaços urbanos conhecidos. Das poucas vezes em que a vítima era alguém com residência fixa, emprego, pertencente a classe média, as investigações policiais não solucionaram tais desaparecimentos.
      Os translúcidos eram seres invisíveis, “inexistentes” e úteis. Eram responsáveis pelo equilíbrio populacional. Tiravam das ruas uma parcela da população que ninguém queria ou reclamava. Passaram por um processo de mutação. Foram um dia os desvalidos das ruas, até que decidiram ocupar as galerias abaixo do nível das edificações da cidade e matar humanos para comer. E as outras gerações nasceram com características diferenciadas e aos poucos a pele foi ficando transparente, os olhos sem coloração e a constituição física longilínea. Acreditavam que eram um  mecanismo de controle divino.
      No passado houve relatos de moradores de rua sobre homens transparentes surgidos de lugares de acesso as galerias do subsolo. Ninguém deu crédito a essas histórias, possíveis resultados de alucinações.  Foram publicadas em jornais sensacionalistas como texto folclórico.
       Em tempos de escassez e aumento populacional, as medidas emergenciais eram necessárias e os mecanismos criados pela natureza, dádiva. Se os translúcidos não sobreviverem a crescente secura planetária, se não se modificarem mais uma vez, certamente haverá um novo movimento de acomodação da vida.

    

    

  
 
 

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