sábado, 25 de abril de 2009

Aparição II

Foi o que perguntou assim que ficaram a sós, enquanto Victor aguardava a alguns passos de distância, próximo ao meio fio, o carro de seu pai que vinha buscá-los. O rapaz respondeu que não havia mistério algum, Blue escutou o endereço quando Ella instruiu o motorista de taxí.Realmente não havia mistério, a não ser o fato do homem esquilo, ser uma espécie de espião e ter como nome uma cor e não ter o nome de um bicho. De qualquer forma, não seria indiscreta o bastante para averiguar a origem do cognome do homem azul e isso não era relevante, como diria Victor. Estranhou o comportamento do amigo ao ser apresentado a Vicente, ele que no início pareceu tão desconfiado em relação àquele grupo. Era bem provável que não soubesse de quem se tratava. Resolveu deixar as coisas como estavam, talvez tudo fosse excesso de sua imaginação. Ella mudou de idéia quando Vicente começou a aparecer em todos os lugares em que estava. A segunda vez foi na saída da escola. Deixou que a acompanhasse até em casa. Uma outra vez no supermercado e assim passou a vê-lo todos os dias. Sentia-se vigiada, como se tivesse perdido a liberdade e ao mesmo tempo não conseguia recusar os convites que ele fazia. No dia em que foi no seu apartamento, num bairro pobre próximo a área portuária, soube que não tinha pais. Fora criado num orfanato. Os amigos também, alguns tinham sido criados por famílias que os adotaram, outros por instituições. O que os aproximara foi essa falta de referência materna e paterna verdadeira. Vicente lembrou da vez em que Ella falara dos pais e ele respondera que tiveram pais cuidadosos também. Talvez tivessem sido se suas histórias fossem diferentes. Ella ficou embaraçada, não sabia o que dizer nessas situações em que tragédias eram reveladas. Ficou quieta olhando para a parede sem pintura da sala do apartamento pequeno e quase sem mobília. Tudo parecia resolvido, havia certo constrangimento no ar, eles eram apenas jovens órfãos esquisitos. Até que Vicente começasse a rir e dissesse que era tudo mentira.

domingo, 19 de abril de 2009

Aparição II - continuação segunda parte

Aparição II – continuação parte II

Ella chegou cedo na noite da exposição, porque tinha hora para ir embora. Victor a esperava noutra festa. Só aceitou dar cobertura para a sua aventura naquelas condições: encontrá-lo em outro lugar e voltar para casa em sua companhia. Parecia um irmão mais velho. Soava estranho para quem era filha única. Um dos armazéns foi preparado para a mostra dos quadros. Pendurados em paredes com a tinta descascando formavam um painel. A luz que os iluminava era fraca, amarelada, contrastava com as paisagens pintadas nas telas de moldura de madeira entalhada. As pinceladas soltas pareciam ter sido feitas por alguém que tinha pressa e não queria perder os movimentos da cena retratada. Ella não sabia de que época eram aqueles quadros, mas pareciam antigos, de artistas conhecidos do século XIX e não daquele bando de garotos. Não aceitou a taça de vinho que Vicente lhe ofereceu para brindar com o grupo. Ele não insistiu depois que falou que não bebia. Em pouco tempo o lugar lotou. As pessoas eram mais velhas e pareciam entender de arte e ter dinheiro para comprar.
Despediu-se depois de uma hora e foi ao encontro de Victor, antes de sair comentou com Vicente que estava indo a outra festa. Ele desculpou-se, estava ocupado atendendo os convidados. Pediu que o homem esquilo a acompanhasse até um ponto de taxi. Ele nada falou, enquanto andava olhava rapidamente para todos os lados, só faltava roer uma noz tirada de um dos bolsos do casaco surrado. Contou a Victor sobre os quadros, os temas retratados a técnica usada. Ele falou que parecia ser imitação da obra dos pintores impressionistas e pós impressionistas. Não era nada de mais, todo artista tem aqueles nos quais se inspira. Ella pensou que os quadros mais pareciam cópias de originais do que outra coisa e resolveu deixar mais aquele dado para análise posterior. Quando se encaminhavam para a saída do clube, Ella percebeu que alguém familiar andava na sua direção sorrindo, não reconheceu o rapaz, vestido como qualquer outro da festa. Ficou em dúvida durante alguns segundos até ele ficar bem próximo. Quando os abordou, Ella intrigada, já havia reconhecido Vicente e apresentou-o a Victor que pareceu simpatizar com ele e retribuiu o aperto de mão de forma calorosa, como um velho conhecido. Não lembrava de ter dito para ele o endereço da balada. Como foi que descobriu?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Aparição II

Com esforço, deu um jeito de ir embora, seus pais cuidavam o horário que chegava em casa e era bem provável que Victor ligasse para o seu celular assim que chegasse da festa. Vicente disse que aceitaria suas desculpas se retornasse no sábado em que inaugurariam uma exposição dos quadros do pessoal do grupo - não comentara, mas o propósito daquele pessoal era a arte em todas as suas manifestações. - Não se constranja, todos os pais são iguais, os nossos também eram assim. Ella enquanto andava acompanhada por Vicente que levou-a até um ponto de taxi, pensava em qual seria o motivo dele ter usado o verbo no passado quando falou nos pais. Muitas vezes, ele parecia ser um homem bem mais velho. Antes que embarcasse no carro ele comentou que houve uma época que aquele lugar era movimentado, iluminado, com comércio intenso, bares elegantes na beira do estuário ou rio, como queira. Durante o rápido trajeto que fez até em casa Ella ficou matutando o que ele dissera: como poderia falar como se tivesse vivido há mais de meio século? Esse era o tempo de inatividade do porto.
Assim que entrou no quarto, o telefone tocou, fez voz de sono ao pronunciar o “alô” para que Victor acreditasse que havia acordado naquele momento. O amigo disse que parasse com aquela farsa barata – viu que havia descido de um carro não fazia cinco minutos. Ella admitiu a mentira e combinou que contaria as novidades no dia seguinte. E assim fez omitindo algumas partes, aquelas que estavam fazendo com que montasse um quebra cabeça. Convidou o amigo para a exposição de artes plásticas no cais do porto, mesmo sabendo que ele inventaria uma desculpa na hora para não ir. Ella percebeu certa desconfiança e contrariedade na expressão de Victor e achava que ele faria de tudo para impedi-la de comparecer ao evento. Ele era muito pragmático para entender aquela gente que parecia ser mais de outra época do que excêntrica.

segunda-feira, 6 de abril de 2009


Aparição II – continuação- parte II

Quando caminhou em direção a uma mesa desocupada não passou desapercebida, o grupo sentado, próximo a porta e com roupas parecidas com as suas, ficou olhando para Ella, alguém que parecia ser o líder, comentou em voz alta: - Aqui nenhum forasteiro passa impunemente e tão pouco tem permissão para permanecer invisível – sentenciou Vicente olhando para as costas da intrusa. Ella estremeceu e ocupou, na mesa vazia, a cadeira que deixava que permanecesse de costas para o rapaz de voz estridente. Levantou e pediu no balcão, a um garção de olhar ausente, uma garrafa de água mineral. Quando voltou para a mesa viu que estava ocupada, apesar do casaco que havia deixado no espaldar da cadeira. Era Vicente que não deixou que passasse direto pela mesa, pegasse o casaco e fosse embora. Não precisa ter medo, somos inofensivos, disse ao estender a mão. Achou ele formal, para a idade que aparentava ter, um pouco mais que a sua. Apresentou-lhe os outros membros do grupo e pediu que se juntasse a eles. Havia moças e rapazes, alguns formavam casais, não necessariamente de sexos opostos. Num total de seis. E assim Ella passou a freqüentar uma balada de sonoridade diferente. Não havia qualquer coisa nas atitudes do grupo que a chocasse naquele primeiro momento, mas sentia um peso no ar, uma vibração, como se algo estivesse prestes a acontecer. Tinha vontade de sair dali, ir para um lugar mais iluminado, mas suas pernas pareciam estar ancoradas.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Aparição II - parte II

Naquela noite não conseguiu jantar, trancou-se no quarto para esperar passar a tremedeira. Só conseguia pensar que ele estava ali. Aquilo que mais temia acabara de acontecer. Ella pecara, como tantos, pela curiosidade que não achava ser excessiva. Tudo começou com sua atração pela área do cais do porto da cidade, então numa noite em que saiu com os amigos para a balada acabou indo parar lá. No início da festa disse que não estava se sentindo bem e pediu a Victor que a levasse para pegar um taxi, mesmo achando arriscado, ele concordou com a condição de que ligasse quando chegasse em casa. E assim Ella fez ao chegar na área portuária. Ficou perambulando entre os armazéns vazios, destinados em outra época, ao estoque de produtos vindos de outras partes do mundo. O porto fora desativado e aquele lugar estava quase abandonado. Resolveu seguir alguém que passou indo em direção a um bar que ocupava uma pequena porta num dos armazéns. Era um homem. Caminhava rápido, o seu jeito lembrou-lhe um bicho roedor, parecia um esquilo. Não percebeu sua presença e tão pouco parecia interessar-se por qualquer coisa alheia a ele. Ella queria parecer invisível ali, então vestiu-se a rigor, com o seu velho casacão preto, calças cargo e os coturnos para combinar. Ao entrar no bar, levou um susto, havia muita gente da sua idade por lá e usavam o mesmo uniforme.