terça-feira, 6 de abril de 2010

Ensaio sobre um lugar

 
     Bairro com ruas arborizadas e enorme população canina, talvez com igual índice da felina, mas os gatos se expõem menos, não saindo com os seus donos para passear. Sobrados antigos se impondo no meio das construções novas e frágeis. Nos bares, estudantes e aspirantes a artista. Nas ruas mais antigas, na parte mais baixa da cidade, persistem os templos nos quais são realizados os rituais da época do neolítico. O som dos tambores reverbera nos pequenos becos. Museus enterrados debaixo de passeios revestidos, além da construção em estilo colonial português pertencente a uma antiga chácara.
Junkies, mendigos e catadores de lixo reciclável se misturam aos passantes. Relatos de autobiografias em mesas dispostas no espaço das calçadas ensolaradas protegidas por lona de plástico colorida, motivados por copos gelados de cerveja pedida no bar próximo a esquina da rua que homenageia um fato histórico. Em cada narrativa há um pedaço de ficção, mas existe liberdade para isso e cada um compõe a sua lenda: Algumas vidas do interior seguiram a rota clichê para um pedaço desta pequena capital, constituíram família e os sonhos juvenis foram transformados em obras possíveis, abandonados na sua essência, numa dobra do tempo.
Neste lugar parece haver espaço para possibilidades alternativas, tentativas de aproximação do novo, original ou nunca visto. Inocência transgressora: Meninos vestidos de preto e olhos pintados beijam-se nas esquinas ou em frente ao supermercado, lugar de fachada despretensiosa, ambiente conservador, talvez porque o ato de comer seja anterior a regra social.
A urbanização não destruiu o passado representado pelas ocupações primeiras, motivo da tradição cultural, que estimula aqueles que vivem do trabalho de transformação do intangível em alguma forma de tradução do seu espaço-tempo.
É para esse bairro que todos os dias viaja o professor de história, não se trata de uma viagem, ele encara como se fosse, por causa da distância, têm que pegar dois ônibus, porque mora num lugar mais afastado considerado área rural. Ele trabalha no museu, gosta da enorme casa antiga construída no século XIX. As paredes pintadas de branco e as janelas verdes tornam o lugar aconchegante e o jardim composto pela árvore velha e a grama rala traziam lembranças da infância. Achou que não iria trabalhar ali durante muito tempo quando foi transferido da biblioteca pública. Lá havia movimento de pessoas e ele se sentia mais útil. No museu, o acervo era de fotografias e não havia muita procura. Numa tarde muito quente ao sair para fora da casa e se
encaminhar para uma construção corroída pelo tempo, coberta por trepadeira que substituía o telhado, antiga senzala, teve uma grande surpresa. Encontrou um atalho entre passado e presente, apesar do fascínio que sentia, o medo de estar perdendo a noção de realidade fez com duvidasse de sua visão.

Se considerava uma pessoa pouco impressionável, não acreditava em qualquer coisa que lhe contavam. Era mania adquirida com a profissão: esperar que todo relato tivesse respaldo. Ficou abismado ao avistar dentro da construção um homem, virado de costas para ele, curvado, fazendo algum tipo de tarefa. Usava uma roupa clara de algodão, calças curtas, pés descalços, cabeça coberta por uma espécie de burca. Quem seria aquele personagem vestido com roupas ultrapassadas e artefato feminino? Fechou os olhos para ver se a imagem se dissipava. Quando abriu os olhos outra vez, não havia mais nada além da vegetação crescida entre os pilares e paredes da ruína. Poderia ter sido insolação, se tivesse estado no sol durante muito tempo, mas estavam no outono e a temperatura mais amena. Quem sabe um trabalhador vestido daquela forma? Alguém meio excêntrico. Deveria haver uma explicação racional. Os dias se passaram e não voltou mais na ruína procurou se ocupar com o trabalho e parou de pensar no ocorrido. Numa tarde de tempestade, enquanto aguardava a chuva diminuir para poder ir embora, parou numa das janelas que dava para os fundos do terreno do museu, olhou distraído o resto de construção e levou algum tempo para elaborar aquilo que via – uma criança vestida com calças curtas, camisa branca e colete – uma vestimenta do passado, esperava fora da senzala. Olhava para o chão enquanto desenhava um circulo. Não chovia nela, juraria que a sombra de sua cabeça se projetava no chão. Ao piscar no momento em que um relâmpago quase atravessava o vidro da janela, perdeu a imagem e mais uma vez duvidou dos seus sentidos. Alguns meses se passaram até que resolvesse ter coragem de se aproximar do lugar. Era início de verão. Caminhou decidido pelo passeio de chão batido. Parou na frente da parede inexistente, olhou para dentro do lugar ocupado pela natureza e viu no seu interior um outro tempo. A estrutura revestida de paredes sólidas, com pouca luminosidade por causa das janelas pequenas. Pessoas andavam entre um cômodo e outro. Viu o homem da burca sentado fumando um cachimbo ao lado de um fogão a lenha, havia uma mulher jovem ao seu lado. Fora da senzala o menino continuava fazendo um circulo no chão e outro menino que parecia ser um empregado, observava o desenho a ser configurado. Parecia que estava vendo um filme sem projetor, sentia-se um expectador, até o momento em que os olhares de todos voltaram-se para ele.