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Apêndice

                                                              
                                                                        

     O que dizer dessas pessoas que sentem que não se encaixam nas ações cotidianas? Não conseguem sentir da mesma forma aquilo que os outros sentem em relação a diversão e visão de mundo...
      São extraterrestres, não são vistos como tal, mas essa sensação lhes habita. Conseguem de forma mimética fazer parte, muitas vezes, nem são descobertos, só se declararem ou tiverem qualquer crise existencial grave.
     Transitam pelos shoppings, parques, supermercados e clínicas psiquiátricas( porque alguém constatou que só esses especialistas conseguiriam tratá-los).
      Admiram a praticidade de algumas pessoas que tomam decisões rápidas, assim como arrumam malas de viagens eficazes, o necessário e ainda conseguem variar trajes. Não têm  dentro de si aquele buraco grande e sem fundo, cheio de coisas desconhecidas que provocam a sensação de desconforto, estranhamento, tristeza inerente.
     Acham que uma boa roupa, um cabelo arrumado e uma maquiagem podem esconder seus sentimentos profundos. São muitas vezes amáveis, afetivos e calorosos. Capazes de promover as qualidades alheias, mas não sabem receber demonstrações de agradecimento ou retribuições. Isso os amedronta.
     Preferem observar a atuar. Mesmo quando interpretam bem ou de forma razoável, fazem isso só por sobrevivência. E quando se expõem demais passam longos períodos reclusos se auto- abastecendo.
      Eles fazem parte de uma outra categoria de ser humano. Estão em todas as áreas profissionais, muitos são artistas. Estão por aí, escondendo sua dor, eles olham todos os dias partes suas a sangrar. São invisíveis para os outros. Nem aqueles que se parecem, enxergam o apêndice que lateja no semelhante. Eles têm a mania de desconsiderar o que lhes dói.
      Débora era assim. Atriz de um grupo de teatro amador, vinte anos de idade. Trabalhava como recepcionista num estúdio de tatuagem para se manter. Não possuía qualquer desenho no corpo ou acessório. Achava que deveria manter o corpo íntegro para os personagens futuros. O namorado tatuado dizia que iria vender sua pele quando morresse, o dinheiro ficaria para ela. Moravam juntos num pequeno apartamento. Muitas vezes, ela sentia que pareciam mais colegas que dividiam despesas do que um casal romântico. Ela pretendia morar em outro lugar, cidade maior em que houvesse mais oportunidades para a sua carreira. Fernando poderia ficar para sempre ali. Trabalhava  no que gostava e sempre haveria pessoas querendo se tatuar. Uma noite eles se encontraram no Ressaca, ela olhando para as pessoas que passavam na calçada falou, enquanto Fernando fazia sinal ao garçom pedindo a cerveja: - Não pretendo ficar por muito tempo aqui.
      Ele desprevenido respondeu: - Aqui aonde? No bar ou no bairro?
     Débora olhando para um labrador que urinava no tronco de uma árvore na calçada, respondeu: - nesta cidade. É muito pequena para os meus planos.
      Como é que ele nunca soubera daqueles planos? Sentia-se traído, surpreso.   
       - Que planos são esses tão mirabolantes? 
       - Tu sabes que o mercado de trabalho aqui é quase inexistente - disse Débora.
       - Mas existem muitos tatuadores e tu não ficaria sem emprego.
       - Fernando, eu tô falando da minha carreira de atriz - disse irritada.
       - Mas eu sempre pensei que era apenas um lazer, terapia, sei lá...
       - Então tu achas que eu tô tentando vestibular para teatro há dois anos, só de brincadeira? 
       - Achei que era só um entusiasmo - respondeu Fernando com a sensação de que as coisas poderiam ser mais sérias do que imaginara.
      Não tocaram mais no assunto nas semanas seguintes, mas ele sempre lembrava da frase que ela dissera ao encerrar a conversa – Iria agarrar a primeira oportunidade que surgisse.
      Quando a empresa promotora de eventos anunciou a contratação de atores para um filme, Débora fez a inscrição, assim como todos os colegas do teatro amador. Fez o teste e não contou para Fernando. Contaria se o resultado fosse positivo. Esperou  duas semanas para saber que ela e um colega foram selecionados. Começariam as filmagens no mês  seguinte em outro país. Ao saber da novidade ela não conseguiu gritar, pular, correr ou gargalhar como muitos fazem. Ficou pensando se aquilo era realmente o que queria, o pânico começou a se instalar, mas foi aos poucos se acalmando ao lembrar que a vida estava conduzindo tudo aquilo. Marcou um encontro com Fernando no Ressaca, ele gostava do bife à parmegiana de lá, o jantar seria uma despedida, ao menos, do seu trabalho e moradia. Contou a ele os últimos acontecimentos com algum cuidado. 
      Fernando escutou sem demonstrar reação. Por dentro estava confuso e desapontado.
      Débora viajaria no final daquela semana, combinara a volta assim que pudesse. O país era próximo do Brasil, eles poderiam se encontrar. Ele achou que ela estava saindo de sua vida. Não pretendia morar em outro lugar caso ela se arranjasse em outro estado ou país. Sua vida era ali no bairro boêmio vivendo das tatuagens.
      Débora foi e não voltou a morar mais na pequena cidade, trocou-a por uma metrópole. Passou a conviver com as pessoas do cenário artístico. Nenhum entendia quando falava naquele vazio que o sucesso não preencheu. 
       Fernando sentia falta de Débora. Pararam de conversar, por causa de várias desculpas. Decidiu permanecer  sozinho, com relações esporádicas. Achava que um dia ela cansaria da vida que a levara dali. Assim poderiam envelhecerem juntos.


Comentários

  1. Muito Bom!Acho que preciso me auto-abastecer de tempo,amigos reais e outras coisas para acabar com esse estranhamento e ou criar outros bem ocultos.
    Um grande abraço Magda!

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  2. Legal, Simone só vi o comentário hoje. Venho pouco aqui, ainda piso neste território com receio. Que bom saber te indentificastes.

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  3. de alguma forma todos somos fernandos e deboras;Parceria,separação,planos,arrependimento,frustração....todos sentimentos inerentes ao humano.Gosto!

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