Pular para o conteúdo principal

Essência

As calçadas ainda estão molhadas, as pessoas conversam nas portas de suas casas e prédios, enquanto a chuva dá uma trégua. Uma mulher fala animadamente com um homem velho e de voz experiente. No horizonte, o sol quer despontar ainda, no final de tarde. Alguém olha pela janela num espaço entreaberto na cortina. Acabara de acordar, a peça permanece escura. Não conseguira dormir a noite toda, sofria de insônia. Era assim, um ser notívago. Despertara com a barulhada alegre dos pássaros que habitavam o coqueiro antigo próximo a sua janela. Um vento qualquer, um pouco mais forte poderia derrubá-lo. Não saia em noites de chuva, preferia as frias e os dias cinzas e secos. Levanta, apesar das dores nas pernas e braços. Sentia o efeito da última batalha. Vivia das guerras travadas com os transgressores de vida noturna. Não lembrava se tivera uma família e nem tinha pessoas próximas. Um dia, como numa espécie de pesadelo, acordou ali naquela cama no quarto envolto na penumbra. Nunca mais voltou para onde quer que estivesse. Por instinto, soube das suas necessidades de sobrevivência. Na primeira noite fria saiu para caçar pequenos animais roedores, não lhe saciaram a fome. Foi quando começou a matar aqueles que viviam nas esquinas e becos escuros, escondidos por algum motivo. Aqueles de quem ninguém reclamaria o desaparecimento. Tinham em comum um histórico de origem duvidoso e incursões na marginalidade. Eram cúmplices. A noite era um tempo no qual sentia pulsar sua única vontade. Os cheiros invadiam seu olfato profundo, ouvia alto o bater do coração de suas vitimas. Rejuvenescia quando absorvia a essência invisível que animava os corpos que se debatiam, antes, de serem mastigados seus órgãos quentes e vibrantes.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PABLO'S HOUSE - I

Amanhece, é início de outono, mas as noites ainda estão quentes. Os dias chuvosos deixam de legado uma umidade pegajosa. Atrás do cipreste, a lua desapareceu e o dia se apresenta mais uma vez nublado. O centro da cidade está deserto. É domingo. Seis horas. Em uma hora o sino da catedral soará avisando da primeira missa. Perséfone observa da janela do apartamento a praça com alguns vagabundos adormecidos nos bancos e a silueta do prédio da igreja. Puxa a cortina para manter a luminosidade fora do quarto. Estivera naquela noite em três lugares e conhecera duas pessoas. Syd e Bonnie. Ela ficou ligada a eles por uma estranha intimidade. Agora sente-se enfraquecida. Está no estágio posterior ao da fome mobilizadora. Não tem forças para se alimentar. Precisa dormir. Syd colocou a calça preta surrada e olhou-se no espelho do banheiro confiante de sua bela aparência. Sempre se dava bem quando saia para a caça. Alto, cabelos tingidos num tom ferrugem, picotados. Os olhos eram acinzentados...

Aparição II - primeira parte

E ai vai a história: Ella ia andando pelo corredor do prédio, era final de tarde e as janelas basculantes absorviam a luminosidade do verão. Aquele calor todo fazia com que se sentisse agoniada, lenta, sem vontade de percorrer o trajeto que a levaria ao apartamento de Victor, seu colega de cursinho. Tinha que estudar aquelas malditas substâncias iônicas, conteúdo dado nas aulas de química, tinha que passar no vestibular da universidade federal e terminar de cursar o ensino médio. Era muita coisa para um só ano, muita pressão e pouca vontade. Tudo parecia tranqüilo quando passava por ali de dia. As escadas, as paredes sólidas de granito cinza. Mas quando anoitecia, na escuridão de uma noite sem lua, as coisas eram muito diferentes. Não queria ficar pensando naquilo, não era hora e além do mais, o Victor, era normalmente cético. Foi o que disse quando perguntou se acreditava nas histórias de Maupassant - Era apenas ficção. Ella discordou, mas não falou sobre sua crença naquilo que alguns...

Bolha de Calor

              A temperatura estava muito alta para a estação, primavera tórrida, sensação térmica de quarenta e sete graus. A bolha de calor se formara devido ao fortalecimento do ar seco na atmosfera, caprichos do El niño. A poluição exigia esforço para respirar. Os olhos lacrimejavam e o nariz ardia. A população da grande cidade já sofria as conseqüências do número excessivo de veículos nas ruas. A mobilidade era o problema e o rodízio dos carros nas avenidas a solução provisória.        A   calamidade era iminente, faltava água, há meses não chovia.        Até para aqueles que viviam nos subterrâneos da cidade a seca estava afetando suas vidas e seu habitat já sofria modificações. A secura já invadia os cantos escondidos pela escuridão. Quando saiam à noite para caçar, o bafo quente aderia   suas peles sensíveis e a fumaça no ar, tornava o cenário ideal para aqu...