Mesmo sendo um dia de semana, Ella decidiu ir ao bar do cais do porto, a noite se insinuava fria e a cena parecia repetir-se: o lugar quase deserto e o homem esquilo cruzando o seu caminho como se estivesse atrasado para um compromisso importante. Passou direto pela porta do bar seguindo em direção ao rio. Ella achou que o lugar ainda estava fechado e forçou a porta achando que não abriria. Ficou surpresa quando ela escancarou facilmente. Apesar da escuridão pôde ver que o balcão, as mesas e cadeiras haviam sumido. Nada mais do que fora um bar estava ali. O lugar abandonado cheirava a mofo e parecia estar fechado há muito tempo. Ella não acreditava, a porta era a mesma, pintada de preto, não podia estar enganada. Andou entre outros armazéns para ter certeza e não encontrou nenhuma porta como aquela. O lugar era aquele naquele acesso ao porto, os portões eram identificados com as letras do alfabeto e o seu era o A. Olhou na direção da orla do rio e viu Vicente conversando com o homem esquilo, estavam de costas para Ella e pareciam discutir. Vicente parecia repreender Blue. Não ouviram Ella se aproximar e falavam num idioma que não conhecia. Ficou encostada na parede atrás de uma coluna e viu quando o homem esquilo caminhou em direção a um beco escuro entre as construções, seguido por Vicente. Congelou quando não conseguiu mais ver os homens ou o vulto deles e sim dois seres planando no ar, tinham uma espécie de fosforescência e emitiam um som chiado, como uma interferência elétrica. Quase desmaiou e levou muito tempo para recobrar-se e ir embora.
Amanhece, é início de outono, mas as noites ainda estão quentes. Os dias chuvosos deixam de legado uma umidade pegajosa. Atrás do cipreste, a lua desapareceu e o dia se apresenta mais uma vez nublado. O centro da cidade está deserto. É domingo. Seis horas. Em uma hora o sino da catedral soará avisando da primeira missa. Perséfone observa da janela do apartamento a praça com alguns vagabundos adormecidos nos bancos e a silueta do prédio da igreja. Puxa a cortina para manter a luminosidade fora do quarto. Estivera naquela noite em três lugares e conhecera duas pessoas. Syd e Bonnie. Ela ficou ligada a eles por uma estranha intimidade. Agora sente-se enfraquecida. Está no estágio posterior ao da fome mobilizadora. Não tem forças para se alimentar. Precisa dormir. Syd colocou a calça preta surrada e olhou-se no espelho do banheiro confiante de sua bela aparência. Sempre se dava bem quando saia para a caça. Alto, cabelos tingidos num tom ferrugem, picotados. Os olhos eram acinzentados...
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