Assistir as aulas no horário da manhã era como estar num território alfa, entre um sobressalto e outro despertava do cochilo e fazia as anotações de biologia. No final das aulas, já acordada, ia animada e com fome para casa. Três vezes por semana estudava com Victor no final da tarde, nos outros dias se virava sozinha. Naquela terça-feira tinham combinado estudarem matemática que era mais um enigma na sua vida e para o amigo, algo elementar. Ficaram revisando a matéria até mais tarde, porque estavam no período das provas de final de ano e tudo ficava mais difícil. Quando saiu do apartamento de Victor não apertou o interruptor da luz e ficou envolta na escuridão do corredor, ficou com medo de ter que caminhar alguns passos na direção contrária para apertá-lo, pensou em sair correndo e subir as escadas até o seu andar, o elevador era uma opção mais assustadora ainda. Olhava para as paredes buscando algum apoio e não conseguia enxergar, quando esticava o braço para tocá-la, tinha a impressão de que ia se distanciando, parecia elástica. Ficou sem referência e em pânico, correu para as escadas, olhou para trás antes de subir, porque escutou um som que parecia um chiado se aproximando. Viu algo fosforescente que saia da parede e planava pelo breu do corredor indo na sua direção. Congelou. No mesmo instante acenderam a luz do andar de cima e Ella conseguiu voltar a correr e só parou ao chegar em casa.
Amanhece, é início de outono, mas as noites ainda estão quentes. Os dias chuvosos deixam de legado uma umidade pegajosa. Atrás do cipreste, a lua desapareceu e o dia se apresenta mais uma vez nublado. O centro da cidade está deserto. É domingo. Seis horas. Em uma hora o sino da catedral soará avisando da primeira missa. Perséfone observa da janela do apartamento a praça com alguns vagabundos adormecidos nos bancos e a silueta do prédio da igreja. Puxa a cortina para manter a luminosidade fora do quarto. Estivera naquela noite em três lugares e conhecera duas pessoas. Syd e Bonnie. Ela ficou ligada a eles por uma estranha intimidade. Agora sente-se enfraquecida. Está no estágio posterior ao da fome mobilizadora. Não tem forças para se alimentar. Precisa dormir. Syd colocou a calça preta surrada e olhou-se no espelho do banheiro confiante de sua bela aparência. Sempre se dava bem quando saia para a caça. Alto, cabelos tingidos num tom ferrugem, picotados. Os olhos eram acinzentados...
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